quinta-feira, 3 de março de 2011

EDUCAÇÃO NO TEMPO DA SAGRADA CIÊNCIA: VERDADE OU FÉ?



O problema da educação é, no fundo, o mesmo problema da verdade. Queremos educar nossos filhos, mas a única referência que temos sobre o que é certo ou errado é o que nós acreditamos ser certo ou errado. Podemos dizer: "o Deus católico não existe, pois está cientificamente provado que os animais não foram miraculosamente criados. Na verdade, eles evoluíram". Contudo, por mais que tenhamos as ciências à nossa disposição para consultas acerca de "como a realidade é", em geral não percebemos que acreditar no que a ciência diz também é crer, e é o mesmo tipo de crença daquele da religião. O fenômeno "crença" é o mesmo em ambos os casos.

Não estou pondo em pauta a questão de se o conhecimento científico é "mais verdadeiro" do que outros tipos de conhecimento. Refiro-me apenas à nossa crença nesse tipo de conhecimento. Dizemos que sabemos que os animais evoluem, mas o que significa isso? Quantos de nós realmente sabe alguma coisa da Teoria da Evolução de Darwin, sobre como ela surgiu, quais seus pontos fortes e fracos, ou como se desenvolveu até hoje? Só o que sabemos é o que nos disseram desde pequenos, nada mais do que um "resumo da ópera". Nossa certeza de que isso é verdade vem, principalmente, do fato de que todos ao nosso redor parecem também "saber" disso. É uma "verdade cultural".

Porém, todo cientista sério jamais dirá que realmente conhece, ou que "domina", seu objeto de estudo. Isso porque ele tem noção de quão complexos são tanto o conhecer quanto a realidade. Ele (o objeto) é misterioso, escapa continuamente ao cientista. Mas, se os maiores especialistas não conseguem e nem se arriscam a pôr um ponto final naquilo que tanto estudam, porque é que nós confiamos nossas vidas à certeza da verdade desse saber? Porque é que nós, leigos em Física, Química, Biologia, etc., dirigimos carros, tomamos remédios e fazemos cirurgias, se não por pura fé? É claro, a resposta é que temos "razões" para acreditar nessas coisas…

Mas, todas as bibliotecas e bases de dados digitais do mundo não são nada além de papel, tinta e bits, se o conteúdo ali registrado não estiver "dentro" da cabeça de alguma pessoa. E o que "cabe" na nossa cabeça é, no máximo, tudo o que conseguimos aprender na duração de uma vida e na extensão de um corpo. E isso é quase nada, temporal e espacialmente falando.

No fim das contas, vejo que nós, filhos da C&T (Ciência e Tecnologia), vivemos em condições muito similares à dos católicos na Idade Média. O grande "ser" chamado Igreja Católica é análogo à nossa sagrada Ciência em quase tudo. Afinal, ambas:

a) Tentam dar conta da realidade como um todo através de explicações bem articuladas e convincentes; 
b) Possuem seus especialistas, que são aqueles que definem o que é válido ou não;
c) Apresentam evidências empíricas da verdade de suas afirmações;
d) Determinam o que é verdadeiro e o que não é ao povo de sua época;
e) Possuem "ampla aceitação", ao ponto de ser absurdo ou ofensivo se posicionar contra o que elas dizem; e, principalmente,
f) Existem apenas na mente das pessoas.

Mas, se é assim, o que é o certo a ensinar? As religiões sempre estiveram erradas ou apenas nos parecem assim porque estão fora de seu tempo?


Fonte da Imagem: 
http://static.guim.co.uk/sys-images/Guardian/About/General/2009/7/1/1246434706102/God-and-Darwin-001.jpg