sábado, 17 de novembro de 2018

A NOITE EM QUE O CÉU INFINITOU-SE E O VENTO PAROU DE ASSUNTAR



ouçam todos, amigos, o que tenho para lhes contar
a história de um rapaz do mundo do roque
e de uma mina que costuma falar em morte
que, tendo a filosofia e o roque para papear
resolveram, os dois, amigos se tornar

numa noite se encontraram, lá na praça do CE
pra falar só de bobagens, nada sério, espairecer
ela e ele e um outro, muito agradáveis companhias
falariam até a hora que o ônibus do roqueiro sairia

nessa noite peculiar, de nuvens turvas no céu
vento fresco e vadio rodopiando, a assuntar
como que prevendo a briga que ali teria lugar
acalmou-se o vento, e o céu mais se enturveceu,
os dois se preparando para o iminente escarcéu

nessa noite, amigos, nada havia de belo
já havia se enfeado pelos breves brevemente idos
menos ainda, nela se havia de beleza encontrar
após esses eventos, que hei de lhes narrar,
e que da face da Terra já deviam ter sido banidos

e banidos deviam ser, mas não por força,
ora, se houveram, por isso mesmo, nascido
e sim pelo esforço intelectual de cada indivíduo
e é por isso que em cordel eu lhes conto o acontecido

estavam lá, entao, a mulher, o moço e o amigo
todos muito entretidos e entusiasmados
até que o amigo, curioso da vida do moço
perguntou-lhe sobre um projeto seu,
bem afamado
aquele, de uma banda de roque com o irmão,
perguntou-lhe, intrigado: que é que tinha acontecido?

o moço respondeu que o projeto não havia dado
nem frutos, nem diversão, somente com os burros n’água
é que o irmão, como ele, gostava de roque tipo défi-métau
mas como, para o moço, só o brútau-défi-métau era honrado
preferiu terminar a parceria, a tocar melódicau-défi-métau
e saiu irmão pra cada lado, como se ambos, com isso, houvessem ganhado

veja que egoísmo, deste moço, que diz somente a música amar
essa não fora a primeira vez, que dera um fora de lascar
ora, que numa outra certa noite disse a mulher a ele: “você não gosta de música”
o silêncio na mesa reinou, todos aguardantes da crítica

o moço ficou logo todo ouriçado, ofendido, vocês precisavam ver
nem sequer pensou em querer saber
porque é que que a moça proferira aquele enunciado
é que ele que dizia de música gostar, apenas roque pesado ouvia e reconhecia
e de tudo que não fosse isso muito mal para sempre lhe faria

do xote ao baião, do forró ao brega, MPB, bossa nova, samba
do pópi-roque as românticas, do répi ao pânque, tango, mambo, seresta
maracatu, bumba-meu-boi, frevo, cantoria
até mesmo o fânque e o arrocha, nada disso ele reconhecia
para ele, tudo isso era nada que pra nada jamais prestaria

vêem que doidice a desse moço,
gostar de um único estilo musical
e dizer que ama a música, quando o que ama é estilo tal
que a maioria do mundo nem isso de música chama?

ele não ama a música, ama a droga na veia que é tocar
e essa droga ele só sente quando a guitarra faz gritar
mas não de qualquer forma, somente nas notas velozes
do técnicau-défi-métau ou do brutal
somente aí, com sua amante perfeita, sente-se total

coitado do moço… perde a vida vivendo tao pequenamente
nem de música ele gosta, mas vive a ilusão de gostar
e essa droga pôs-lhe a perder oportunidade valiosa, imensamente
de criar, de musicar, com o irmão, seu companheiro

pois nem por essa música que diz amar
nem pelo irmão, que ama, efetivamente
foi capaz o moço de ceder, e aprender algo verdadeiro
jogou no lixo a oportunidade, a habilidade e a criação

mas isso, amigos, é passado, voltemos dessa pequena digressão
ela serviu para contextualizar o ódio do moço no coração
mas a história que vim dizer não foi essa, mas a primeira
aquela que eu parei no apartamento dos irmaos

seguiram, entao, cada um a sua vida,
disse o moço que assim havia sido
e que na mente dele um novo projeto já havia nascido
mas que faltava uma banda para com ele tocar
obviamente, um grupo de gente todos dispostos a com ele concordar

e renegou Joao Pessoa, por não conseguir, nela, seus súditos juntar
disse que aqui não há roque que preste
que a cidade é boa pra beber nas suas ruas, praças e sarjetas
mas que boa música, bons músicos, aqui, não resta
e que a cidade negava a esse roque aceitar
dele, não queria nem gorjeta

será que é por que Jampa prefere o reggae, o forró e a cantoria?
sinceramente, menos briga é certo que teria
e até a moça que é bem fa do mais pesado dos pesados roques
adora, também, um bom reggae e um bom forró: é pura harmonia!

e aí, a moça, de mente toda confusa
em meio a tantos nomes e divergências absurdas
apenas disse, brincando, numa entonação bem matuta
“défi-métau, brútau-défi-métal, técnicau, melódicau, défi-cor, darque e fôlqui-metal
isso tudo aí pra mim, ó, não tem sentido
essa denominação toda é só ruído
a mim me basta saber o que me toca
o resto é o que eu não gosto e pouco importa”

ah, pra que disse isso? Falara ingenuamente, brincando,
mas o moço ficou, novamente, ofendido
e foi aí que evidenciou-se o que deveras havia acontecido
é que a moça falara com indiferença, chacoteando
daquilo que, com mais orgulho, o moço tinha desenvolvido:
a sabedoria de saber o que quase ninguém sabia.

e essa sabedoria imponente, não era filosofia, ciência ou poesia
não era sequer “arte bandida”
era tao somente “nomenclaturia"
e com essa régua a moça já havia sido medida

mais ainda! é que o nosso moço,
ao ouvir o caçoar sem má intençao
percebeu, no dizer da moça, sua maldição:
a pequenez do seu saber,
ficou, ele, obrigado a reconhecer
e por isso tomou a verdade como ofensa

daí, pra baixaria ele partiu e a moça agrediu
de modo tal, que, hoje, quase já não mais se vê
ouçam, amigos, o que, neste cordel, há ainda de suceder
pois bem que o rapaz bem tentou, mas evadir-se não conseguiu.

o que houve foi que o moço tomou, com as dores, a palavra
e afirmou que as MULHERES, vejam bem,
as mulheres não conseguiam a sutileza perceber
que as mulheres sao INCAPAZES dos sub-estilos aprender
e que incapazes o são POR NATUREZA.

“ora essa, que diabos é isso?” — pensou a moça
“eu, depois dos trinta, me ver ainda diante desta arena?
que mundo é esse onde mulher tem como serviço
para garantir ao homem ser grande, tornar-se ela mesma pequena?”

e num salto, reagiu:
“como é, meu irmão? Que viagem é essa aí?
estás dizendo que a mulher é burra
por que não detém esse teu “saber” de sagui?
não pensas que apenas possa ser
que ela apenas nao liga pra isso
e que é tu que berras aos quatro cantos que é pequeno o que mais valorizas?”

“nunca te passou pela cabeça
que as mulheres que tu conheceste até hoje
ou são só PESSOAS burras (se é que as há), ou mulheres coerentes,
que não se importam com coisas desimportantes?”

lembrem-se, amigos, de que, pelo moço envaidecer
não importara nem ao irmao escarnecer:

abandonara coisa tao bela, projeto músico-fraternal
por essa conceptualizaçao de merda que só faz mal…

mas, isso não se disse, e o moço respondeu
e com isso a conversa entre eles assim se deu:  

— não, não é assim. É fato que as mulheres são incapazes de aprender
e os diferentes estilos musicais reconhecer.
eu sei, eu vi.

— mas, e as musicistas? As bateristas, guitarristas, e tantas mais
não são elas capazes de discernir?
— ah, essas aí, entendem, sim
— entao me diga, meu caro, se instrumentista não tem gênero?”
— Como assim?
— ora, pergunto-lhe se são homens as mulheres
dessas bandas de róqui-qualquer-coisa-métau
— Sim, é como se fossem.

descrente ainda com tamanha estupidez
insistindo já com fé na profundidade da alma humana
resolveu a moça formular o ataque machista expressamente
internamente, contudo, duvidava:
“até agora não deu, será que a coisa ainda anda?”
-- estás percebendo que o que dizeste?
que a mulher é incapaz de aprender,
que é burra POR SER MULHER? --

e o moço disse -- sim, é!

tao logo essas palavras saíram de sua boca,
o chuvisco sobreveio,
a noite enegreceu-se, infinitou-se
o vento cessou, do choque de ver amizade tao pouca
e um gato que passava, lamentou: “que fêeio, que fêeio…”

e foi isso, meus amigos, a mais pura verdade
esse meu relato, que eu havia de transmitir
de divulgar, jamais assentir
com tamanha violência,
depois de tanta insistência,
sofrimento e suor
depois das lutas de decênios após milênios de dor
das mulheres desse mundo que ainda as rejeita
como humanas inteiramente, igualmente, simplesmente

meu silêncio, aqui, seria mais que covardia: crime!

e agora, depois de tamanho coice, quem é que vai duvidar?
que o moço da nossa história, covarde e mesquinhamente
é incapaz de autocrítica, humildade e de compartilhar
e agora não pode mais negar o que ele mais teme:

que o mundo inteiro descubra
o quanto ele mesmo se acha impotente.

Smoke and Mirrors


Lembro-me como se fosse ontem do dia em que, aos meus 18 anos, tive um papo tête-a-tête com a morte. Eu tinha um revólver calibre 32 de cano curto, comprado no mercado negro, que eu havia adquirido para defesa pessoal após meu namorado ter sido ameaçado de morte por um traficante e ter passado a andar armado com um facão rabo-de-galo na cintura, por dentro da calça. Vivia num mundo de pessoas-bichos, cercada de decadência, violência e drogas. Eu havia conseguido me tranquilizar depois que adquiri o revólver, e tinha grande cuidado com ele. Desenvolvi um ritual de limpá-lo todos os dias, como forma de me sentir mais segura e autoconfiante (armas fazem isso conosco, talvez por isso sejam tão perigosas).

Um belo dia, contudo, cansada de tudo aquilo, tranquei a porta do meu quarto e dei início a meu ritual diário de limpeza do Amadeus (Amadeus foi o nome que dei ao meu revólver). Todos os detalhes desse momento estão claros como cristal em minha mente. Abri a porta central do meu armário, aquela menor, do meio, cheia de prateleiras, e vi a luz da manhã iluminando parcialmente o interior da prateleira onde Amadeus se encontrava. Ele estava posicionado com o cabo para a esquerda e o cano para o fundo, meio na diagonal, de forma que estava parte coberto pela penumbra, parte na luz. Lembro da poeira fina do ar rodopiando na luz, quase que tornando-a gasosa. Estendi a mão e o retirei de seu lugar especial. Sentei-me na cama e, calmamente, limpei-o por fora, com uma flanela; abri o tambor e retirei as balas; limpei o tambor e o cano, cuidadosamente e, em seguida, recarreguei o tambor com as 6 balas que comportava; fechei o tambor; destravei o revólver; levantei-me e andei em linha reta até o espelho de corpo inteiro do meu quarto, com arma em punho; apontei Amadeus para a minha têmpora esquerda (sou canhota), em frente ao espelho. Era uma bela imagem. Belíssima! Dava-me uma paz tremenda estar ali. Era silencioso, pleno, poderoso. E o poder que eu sentia (e que, de fato, tinha) era o de acabar com toda a dor. Tudo, o universo inteiro, todos os momentos vividos e os que viria a viver estavam ali, diante de mim, expostos e estáticos, esperando... Esperando minha ordem, minha escolha. O universo curvava-se perante mim, agia segundo minha vontade.

Observei a cena no espelho por um longo instante. Fiquei esse tempo todo ali porque estava me sentindo muito bem. Estava analisando a cena, vislumbrando o poder que estava em minhas mãos, decidindo se faria ou não aquilo que estava prestes a fazer. Não pensei nos meus pais encontrando meu corpo no chão, ensanguentado, com partes de cérebro misturadas a sangue espalhados pelo chão, porta e paredes. Não pensei na dor e no desespero que lhes causaria, nem na culpa que eles sentiriam ao tentar encontrar em si mesmos a razão daquilo tudo. Não pensei na tristeza que causaria a meus verdadeiros amigos, a meu namorado, a ninguém. Não havia ninguém ali. Só havia eu, toda-poderosa e suspensa no tempo.

Pensava, sim, em tudo o que eu estava vivendo. Como os acontecimentos mundanos estavam me afetando, como eu sofria diariamente com a superficialidade humana, com o desejo humano de se tornar bicho, não gente. Pensava nos horrores que passavam nos noticiários todos os dias, porque além de horrores, eram reais (eu sabia disso, afinal, vivia parte desses horrores diariamente). Pensava no ódio cultivado com gosto dentro do peito da gente comum, que transpira hipocrisia, arrota inveja e rancor, e que aponta o dedo na cara dos outros em acusação, como se todos fossem criminosos por possuírem os mesmos defeitos que eles mesmos carregam no colo e cuidam como se fossem um tesouro precioso ou um bebê. Pensava em como essa gente era sempre a mesma gente que sempre abria a boca pra dizer-se amante de Jesus e da Justiça. -- Até hoje acho incrível como é que tais palavras podem vir à boca, sem jamais antes terem estado verdadeiramente na mente, nem nascido da alma. -- Pensava que minha vida era miserável, pois meus pais não me compreendiam e repudiavam quem eu era; pois o mundo se voltava contra mim; pois eu não encontrava mais paz em lugar algum que não fosse naquele pequeno período matutino, durante o qual eu limpava Amadeus. Isso era absurdo demais! Tudo era absurdo! Como é que a paz estaria na companhia de um objeto capaz apenas de gerar morte e dor? Como é que eu não me sentia em paz junto às pessoas, junto à natureza, junto aos animais? Como é que eu não tinha paz interior? Ora, minha própria companhia me causava ojeriza!!! 

Estava ali, pensando tudo isso e muito mais. Até o ponto em que me dei conta de que a solução da miséria de minha vida miserável estava bem ali, ao alcance do mover de um único dedo meu. Um mísero movimento de um único dos meus miseráveis dedos daria fim à minha miserável vida e ao maldito sofrimento que só me permitia sentir paz nos momentos e lugares mais impróprios...

E foi aí que me veio um estalo: minha vida, por mais miserável que fosse, não poderia ser mais miserável que o movimento de um dedo MEU! Por mais que minha vida fosse podre, um dedo meu era ainda menor que tudo isso, era só parte (e pequenina) de toda a minha miséria. Sequer importava tanto. Poderia viver numa boa sem esse dedo. Me vi numa sinuca de bico: não poderia dar cabo da minha vida com um movimento de um dedo meu, seria uma contradição tremenda!!! Eu estava plenamente de acordo comigo mesma em que minha vida, por pior que fosse, valeria mais que o movimento de um dedo meu. Percebi, então, que estava enganada. Chegara até ali com segurança e paz e, no entanto, agora estava confusa. Não é poder o que detenho, é covardia! Um dedo que só vive porque a vida que o habita é-lhe cedida gratuitamente pelo corpo de que é apêndice ter o poder de usurpar a mesma vida que o anima daquilo tudo de que é parte, daquilo tudo que lhe confere sentido e existência, daquilo que lhe confere, inclusive, a posição mesma de usurpador do seu próprio ser... Ora, isso só poderia ser covardia!

Pensei, então, que, se estava enganada quanto a meu poder, que nem é poder, mas covardia; nem é meu, pois inevitável (a morte é inevitável); que se estava enganada quanto a isso que instantes antes me era verdade absoluta e plena certeza; e se, na mesma medida, estava eu enganada quanto à magnitude da miséria da minha vida -- pois havia algo ainda mais miserável que ela: o movimento fugaz do meu miserável dedo --, era óbvio que eu poderia eu estar enganada, também, quanto ao teor de todo o resto. Da certeza e da segurança e do poder que sentia, passei, subitamente, a um estado de dúvida e investigação. Tudo o que pensara voltou à minha mente sob nova luz, sob a luz do questionamento: será que tudo é tão negro como estou vendo? Será que não há alguma saída, algum lugar onde o mundo é mais como aquilo que eu gostaria que ele fosse? Será que eu já procurei o suficiente? E eu sabia que não. Não procurara, não me esforçara o suficiente para ver o outro lado da moeda. Desde sempre me vi afundada na tristeza e cultivava-a com carinho. Dessa forma, é claro que essa árvore cresceria forte e daria frutos gordos e suculentos! Como não???

Compreendi, pois, que meu poder todo estava justamente na capacidade de escolher acabar com tudo, ali, naquele momento, ou viver mais um pouco, pra ver se realmente a decisão de matar-me era a correta. Afinal, se eu mudasse de ideia, Amadeus estaria sempre ali, pra mim. No entanto, se eu optasse pela morte, não haveria volta, não haveria possibilidade de arrependimento, não haveria mais nada. A escolha que eu deveria tomar tornara-se clara. 

Lentamente, baixei a arma, fitei-me no espelho por mais alguns segundos, e segui com o restante do ritual: coloquei Amadeus de volta no seu cantinho, como sempre posicionado com o cabo para a esquerda e o cano para o fundo, parte na luz, parte na penumbra. Vi uma vez mais a poeira fina rodopiar na luz e a porta fechar em trevas aquele cubículo da morte. E isso é tudo o que eu me lembro desse dia.

Depois disso, algo em mim havia mudado. O mundo todo começou a soar diferentemente, mas não era o mundo que mudara, era eu. Eu estava ouvindo e vendo e cheirando e tocando e provando o mundo de um jeito diferente, totalmente novo. Não era melhor que o jeito anterior, era apenas diferente. Mas foi aí que percebi que eu não era mais que uma criança que experimenta o mundo, que experimenta seu próprio corpo, sua alma viva e sua consciência. -- Até hoje sou essa criança. -- Que eu estava ali, onde eu estava, por escolha própria. Por uma escolha da mesma natureza daquela que eu tomara diante do espelho, contudo, com uma diferença: eu costumava decidir SEM pensar antes. Por isso estava ali. Por isso o mundo era como era. 

A isso tudo seguiram-se longos meses de reflexão e aprendizado, de experimentação desse mesmo-mundo-diferente como se me apresentava. Percebi que minha vida estaria sempre em risco, por isso não fazia sentido dar cabo dela assim, tão facilmente. MORRER É A ÚNICA NECESSIDADE NA VIDA! Sendo assim, tudo o mais contingente, todo esse sofrimento pelo qual eu passava era incerto, poderia, um dia, acabar, e provavelmente acabaria, como tudo o mais no universo. Aos poucos, percebi que a violência e a decadência e a estupidez a que eu estava exposta era algo a que EU MESMA ME EXPUS. Afinal, eu aceitei namorar um maluco drogado e inconsequente. E mais: eu renovava minha escolha a cada dia ao insistir em continuar namorando com esse mesmo maluco drogado e inconseqüente. Eu aceitei conviver (de novo, escolhas feitas uma por uma, a cada dia) com membros de gangues e ladrões e ex-presidiários. Eu, e somente eu, fui a responsável pelo afastamento dos meus verdadeiros amigos, aqueles que se importavam comigo e que estavam muito preocupados com o rumo das minhas escolhas; aqueles que gostavam de jogar RPG e ouvir música e ir ao cinema e a shows e conversar coisas interessantes e rir e se divertir sadiamente. Eles ainda viviam suas vidas sadias, EU QUE ESCOLHI VIVER DOENTIAMENTE. E, se era eu que havia feito tal escolha, deveria aceitar as consequências dela, e não agir como uma covarde inconseqüente, fugindo da minha responsabilidade por mim mesma.

É... Descobri, por causa daquilo tudo, que EU SOU RESPONSÁVEL POR MIM MESMA. Eu e mais ninguém. Meus pais podiam não me compreender, e podiam até me repreender por isso. Mas isso era a escolha DELES. O mundo ao meu redor poderia ser horrível e decadente, como de fato era e é. Mas eu não precisava fazer parte disso. Eu sou eu porque EU ESCOLHI SER QUEM SOU. Se algo de ruim advier dessa escolha, que seja! O mal que me retorna, afinal, é a pista mais importante do erro que cometi, é a dica da vida pra que eu possa corrigir minhas ações passadas através das minhas escolhas futuras; para que eu possa mudar os frutos que eu colho escolhendo plantar outras sementes.

Isso tudo ocorreu num período terrível pra mim: final da minha adolescência e início da minha idade adulta. Foi em torno de 1997 a 2002 que minha alma adotou uma postura diferente para a vida. Depois disso tudo, ainda continuei fazendo muita merda, porque essas lições não estavam claras em minha mente, como estão hoje. Se hoje eu dou este depoimento, tão claro e uno como parece ter sido, não é porque tudo esteve sempre claro e ocorreu ordenadamente ao longo do meu percurso. Fiz muita merda depois disso, ainda, mas fui capaz de aprender com tudo o que vivi. Depois, do início de 2008 até início deste ano, 2013, eu passei por uma depressão crônica que me devastou quase completamente. Quis morrer de novo, desta vez porque a dor de existir era tão grande que era melhor deixar de existir a inspirar o ar mais uma vez. Foi terrível! Só eu sei como foi terrível! Contudo, se eu quis morrer, em nenhum momento quis me matar! Porque eu sabia que essa escolha era algo que eu poderia tomar a qualquer momento, e porque eu sabia que iria morrer, independentemente de eu escolher morrer. E eu sabia que o sofrimento que eu estava vivendo ali não era algo perene. Que eu poderia aguentar a dor com força e coragem que ela haveria de passar. E o mundo teria outras cores, outros sabores, outras texturas, outros aromas e outras melodias a me apresentar, novos e os mesmos mais uma vez. E foi aí, durante minha "noite escura", que eu descobri que até mesmo nas trevas há beleza...

É essa a beleza da vida: a profundidade da experiência da alma, seja ela uma experiência ruim, alegre, confusa ou terrível! A vida passa e é isso que a torna bela. Tudo será sempre novo e o mesmo novamente e para sempre! Como isso pode não ser maravilhoso? Como alguém pode querer fugir de todas essas possibilidades, SABENDO que muito da dor que passa é resultado de suas próprias escolhas?

Hoje, eu amo essas experiências terríveis e funestas que vivi. Elas são parte da força que me constitui, são parte de quem sou hoje. E eu gosto desse resultado parcial que me tornei. Gosto muito. E foram essas experiências que me ajudaram a construir a pequena base sólida sobre a qual eu me coloco sempre que o turbilhão da vida tenta me roubar de mim. SOU MUITO GRATA A MIM MESMA (e a quem mais?) por ter tido a sagacidade de espírito de perceber que minha vida (uma miríade infinita de possibilidades de escolha) não pode valer menos que uma única NÃO-ESCOLHA minha. Não-escolha porque não é escolha aquilo que é certeza e que independe de nossa vontade. A morte é a única coisa que temos certeza que nos acontecerá, cedo ou tarde. Logo, ao escolhermos morrer num determinado momento e de uma determinada forma, de fato, não estamos escolhendo nada, apenas ornamentando, enfeitando, como bem achamos que deve ser enfeitado, um fato que há de acontecer, com ou sem escolhas quanto aos adornos que o ornamentam.

Sobre Deus, o Universo e Tudo Mais


Questionada acerca da minha descrença em divindades, especificamente no tocante a eu já ter adotado minha posição como sendo de caráter conclusivo, respondi o que se segue:

Crer na inexistência de algo é, em termos lógicos, até mais absurdo que crer na existência de unicórnios, justamente porque não há evidências possíveis para a inexistência. Não é possível provar que algo não existe porque provas são marcas na existência, logo, eu não "concluí" que deuses não existem, eu meramente resolvi ser honesta para comigo mesma e aceitar que eu não creio neles, e que, quando cria, o fazia sem ter fortes evidências ou boas razões. 

Pois é, minha crença é de que "eles" não existem. Ora, eu me comporto como quem não crê nisso; eu me sinto dessa forma; eu não me pego orando nos momentos difíceis, nem suspeitando que meus atos ou meus pensamentos estão sendo observados (ou de alguma maneira, conhecidos) por alguma entidade superior; nem sinto que há algum sentido oculto na vida que não seja um que eu mesma tenha criado. Quando eu fiz essa análise interior, sendo franca comigo mesma, encontrei essa crença lá. Só o que eu fiz foi admiti-la abertamente. Contudo, isso foi uma análise a posteriori, feita muito depois de eu ter passado a crer que deuses não existem. Na verdade, esta nem sempre foi a minha crença basilar, nesse assunto. Mas ela, também, não surgiu do nada.

Surgiu, sim, ao analisar cuidadosamente as evidências que eu possuía da existência de deus e vê-las cair, com espanto e horror, uma a uma. Foi ao analisar, dolorosamente, as razões que sustentavam minhas crenças e ao perceber que eram frágeis, que nem mesmo constituíam argumentos, muitas vezes, foi somente aí que percebi que tudo aquilo sobre o que havia me baseado para guiar minha vida -- o afirmar categoricamente a existência de "algo" (deus, força superior, teleologia ou, meramente, mundo espiritual distinto do material) -- não passava de autossugestão, ou autoilusão, se preferir.

Daí, fiquei numa posição verdadeiramente cética por um tempo. Mas isso não é pacífico, é desesperador! É insuportável para a alma! Ela pende obrigatoriamente para um dos lados que conhece! Somente em nível do raciocínio, em termos lógicos, podemos nos dizer céticos, pois de outra forma temos dúvidas, sim, mas há algo que cremos no fundo, no fundo. Algo em redor de que as dúvidas se levantam; um algo que já está lá, que não fica oscilando a cada pensada, a cada volta que o pensamento dá ao duvidar. Nem são dúvidas verdadeiras, eu diria, que se erguem, mas mero medo do engano, medo mesmo do desconhecido estar ainda à espreita e você estar correndo o risco de ser pego desprevenido. 

Dúvida verdadeira acerca da existência de deus seria o que? "Será que deus existe?" Isso é uma mera formulação de uma crença que é consciente enquanto a crença que é: "Eu creio em deus, Ele existe -- isto é certo -- e a perfeição (que também existe) é do domínio d'Ele. Logo, a imperfeição está do lado de cá, em mim e em todos como eu. Sendo assim, será que eu estou certa? Não é ao menos possível que eu esteja enganada, ou melhor, que eu tenha estado enganada, durante toda a vida, em crer na existência desse ser fabuloso que, de fato, é?" Essa é a correta formulação do ceticismo intelectual, que é, ainda, um ceticismo teísta. Nesse ponto, está-se um nível acima do ceticismo de alma, do verdadeiro ceticismo, aquele que flutua no caos sem fundamento algum. Aquele é, ainda, o estado do "será?". O ceticismo de alma é o estado do "???": completamente perdido de si, incapaz de sequer formular uma sentença que expresse sua situação de "perdição". E foi isso o que ocorreu comigo.

Mas, antes do "???" veio um forte "!!!". Isso se deu quando percebi que a dúvida inicial, a que me levara à busca que resultara nesse estado de "susto" antes da confusão geral, não era uma dúvida genuína sobre a existência de deus, mas uma genuína dúvida de se eu poderia estar enganada em crer nisso. Enquanto a possibilidade da falha (a possibilidade de inexistir) era atribuída a deus, eu não conseguia duvidar. Foi somente quando eu mudei o foco para mim, que sou, certa e irrevogavelmente, falha (e isso não havia como negar), foi somente aí que consegui uma "brecha" na minha fé pra miná-la por dentro. Mesmo assim, daí em diante, o caminho, apesar de inevitável, continuou difícil.

Com muita dor e esforço e resistência da minha força de vontade de querer saber eu fui minando, uma a uma, as razões que eu cria serem muito boas (mas se demonstraram frágeis, como já dito), e as evidências tão evidentes aos poucos se mostraram enganos igualmente possíveis. Então, somente ao constatar, sem conseguir divisar saída, que não tinha razões suficientes, nem evidências garantidoras dessa crença ter verdadeiramente um "algo" por detrás que a sustentasse, que eu aceitei a possibilidade de olhar a existência de deus (um fato) como uma mera crença (um juízo). E foi justamente isso que me assombrou: o mero vislumbre numa existência a-divina foi um tremendo susto! Mas, aí, já tinha dado o derradeiro passo, não tinha como fingir que não tinha percebido um além, que meu horizonte hermenêutico não havia sido estilhaçado.

O universo, então, se dissolveu diante dos meus olhos. Esse "lado de lá" era como que um caos que não se mexia, algo muito, muito, muito estranho. As coisas não eram mais sólidas, apesar de ainda estarem todas lá. Algum absurdo as mantinha unidas, dispostas, o tempo e o espaço aparentemente dentro dos conformes perceptivos de sempre. Passei umas duas semana meio maluca, pensando o tempo todo "o que é real? o que é real?" Tive a sensação de estar pirando! Foi PUNK!

Levei cerca de dois anos pra reconstruir meu "universo [sem] deus e tudo mais". Átomo por átomo tive que reconstruir, e era tão gigantesca a obra que não havia como não me apegar a crenças prontas, dadas em certo nível, para construir em cima delas. Principalmente no início, pois eu precisava de um solo firme a fim de sair do desespero em que eu vivia. Esse desespero era o de poder deixar de existir a qualquer instante, ou pior: meu estado era o de alguém que "piscava" na existência, já que, sempre que eu me concentrava em mim mesma, na minha própria consciência, eu tinha certeza de que existia, de algum modo. Mas, bastava meu pensamento se voltar para qualquer outra coisa que, subitamente, eu recordava que nada tinha como persistir por si só, de fato, e aí eu tinha que voltar a mim mesma pra ver se eu ainda estava ali. Ainda bem que sempre estava...

quinta-feira, 7 de junho de 2012

MENSAGEM AOS RELIGIOSOS DE PLANTÃO: Atenção, por favor!




Estou cansada de ficar discutindo com pessoas que fazem uso dos termos "Ciência" e "científico" para legitimar seus discursos. Que os cientistas façam isso (e muitas vezes o fazem de forma indiscriminada), eu ainda entendo. O que eu não entendo é por que, vocês, que se dizem crentes numa determinada doutrina (aqui me refiro a todas as doutrinas religiosas, teístas ou não), ficam tão maravilhados quando se deparam com o maldito termo "provado cientificamente" - tão vago quanto inócuo quando o assunto é postular verdades absolutas.

Ora, se a doutrina que vocês juram de pés juntos acreditar é tãaaao verdadeira assim, por que vocês se sustentam tanto no que diz "A Sagrada Ciência"??? Decidam-se, pô: é a Ciência que dita as regras ou a doutrina que cada um de vocês prega??? Ocupem-se em crer no que dizem crer e mandem a Ciência ir catar coquinho, pô!

O fato de vocês não fazerem isso levanta certas questões acertadas... Por que cargas d'água, afinal, o conhecimento religioso de vocês precisa de fundamento científico, de legitimação externa à doutrina? Não pode ser porque vocês se sentem ameaçados, não é verdade??? É claaaaro que não! Como poderia um pensamento tão profano, tão mortal, tão humano e imperfeito, como o conhecimento científico, ameaçar as Verdades Absolutas de cada uma das doutrinas religiosas? Se não é por isso, então, por que é mesmo que há essa necessidade visceral de suporte científico? Será que vocês se sentem ameaçados não pela Ciência, mas uns pelos outros, religião oprimindo e sendo oprimida por religião? Nãaaaaao, isso jamais! É claro que não! Impossível! Afinal, cada uma das doutrinas religiosas detém, independentemente, A Verdade Absoluta. Sentir-se ameaçado pelo que quer que seja externo à própria doutrina seria admitir que a validade das verdades por ela pregada não é tãaaaao absoluta assim. Admitir isso, é o mesmo que admitir que, pra que algo seja uma Verdade Verdadeira, é necessário ainda mostrar que se tem razão, ou é preciso ganhar no grito, ou, ainda, conseguir maior número, o que, invariavelmente, leva novamente à conseqüência funesta de que a verdade pregada pela doutrina de vocês seria, no máximo, quando muito, Relativa, circunscrita à comunidade religiosa em questão. Isso sim, justificaria buscar mais "peso" em seus argumentos uns contra os outros por meio do conhecimento científico, que se esforça tanto pra ser humilde, pra não se precipitar, fazendo das tripas coração pra evitar ver evidências irrefutáveis onde há apenas indícios vagos de que alguma teoria corresponde ou não aos fatos. Mas, é claaaro que vocês não precisam disso. Se vocês JÁ POSSUEM a Verdade, pra quê procurar por ela em outro lugar, e pra que se sentir ameaçado, não é?

Então, minha sugestão, ou melhor, meu apelo incondicional, aos religiosos missionários de plantão é: Vão estudar suas doutrinas, vão ler os textos sagrados e fazer as preces e meditar e a porra toda. Ocupem o tempo de vocês se aprimorando em direção ao seu Criador, ou buscando sua Harmonia Interior, ou o Dharma, ou o Nirvana, a Perfeição da Alma, ou qualquer uma dessas coisas que vocês dizem acreditar. Façam isso e salvem suas próprias almas, em vez de tentar salvar a do seu vizinho! Imagino que isso já seja trabalho demais pra cada um de vocês. Pensem por esse lado: se cada um, começando por vocês, fizesse sua parte, o mundo inteiro já estaria salvo!

Enfim, sejam coerentes consigo mesmos e com suas próprias (alegadas) convicções e simplesmente creiam verdadeiramente naquilo que afirmam crer; façam minuciosamente aquilo que a doutrina que vocês dizem crer afirma ser o correto e verdadeiro. Façam isso, por favor: deixem de ser hipócritas tentando legitimar o discurso de vocês, sejam simplesmente crentes honestos e, honestamente, DEIXEM A CIÊNCIA EM PAZ!!! Ela não tem culpa de vocês se sentirem mal ou incompreendidos! Isso é parte da vida. Melhor ficar calado do que falar horrores sem dizer nada...

Só para o caso de alguém ainda estar com dúvidas: veja se você, religioso-oso-oso, se enquadra dentre aqueles que acredita em alguma das afirmações a seguir:

a) "A atividade da Ciência é descobrir verdades";
b) "Existe entidade tal que possa ser chamada de 'Ciência' ";
c) "A 'Ciência' existe enquanto entidade depositária das verdades postuladas por ela, bem como das regras de comprovação de verdades ainda não comprovadas (o chamado 'método científico')";
c) "Existe tal coisa una, única, imutável e unívoca comumente conhecida como 'O Método Científico'"; 
d) "As verdades postuladas pela 'Ciência' são resultantes de CONSENSO entre os cientistas".

Se vocês ou alguém que vocês conhecem crêem em quaisquer (uma ou mais de uma, capisce?) das afirmações acima listadas, sinto-lhes informar, irmãos, mas vocês não fazem a menor idéia do que a Ciência é, de fato. E não vou ser eu a explicar o que ela é. Se vocês quiserem MESMO saber, parem de ler seus sagrados-textos-sagrados e de fazer suas preces e de agradar seus mentores espirituais e seus deuses e VÃO ESTUDAR! Isso mesmo, estudar, mas não a Bíblia, ou o Alcorão, ou os escritos dos discípulos de Buda ou de Shiva ou os textos supostamente revelados pela Razão Superior, etc. Vão estudar História da Ciência, Filosofia, Metodologia (e não "método") Científica, Lógica e tudo o que for necessário para se ter a mínima noção do que se está falando, ok? E não vale estudar material produzido por pessoas da própria doutrina de vocês, pois isso nada mais é do que desonestidade de propósito. Se vocês querem REALMENTE saber o que é a Ciência, que é algo DIFERENTE de Religião, busquem fontes de pesquisa criadas por cientistas e filósofos respeitados no mundo todo. Não fiquem aí gritando e enchendo a paciência de quem já perdeu muitas noites de sono e se matou de estudar pra compreender a complexidade do sistema que constitui o que comumente se chama de "Ciência" e "pensamento científico". Estamos entendidos???

domingo, 18 de setembro de 2011

quinta-feira, 3 de março de 2011

EDUCAÇÃO NO TEMPO DA SAGRADA CIÊNCIA: VERDADE OU FÉ?



O problema da educação é, no fundo, o mesmo problema da verdade. Queremos educar nossos filhos, mas a única referência que temos sobre o que é certo ou errado é o que nós acreditamos ser certo ou errado. Podemos dizer: "o Deus católico não existe, pois está cientificamente provado que os animais não foram miraculosamente criados. Na verdade, eles evoluíram". Contudo, por mais que tenhamos as ciências à nossa disposição para consultas acerca de "como a realidade é", em geral não percebemos que acreditar no que a ciência diz também é crer, e é o mesmo tipo de crença daquele da religião. O fenômeno "crença" é o mesmo em ambos os casos.

Não estou pondo em pauta a questão de se o conhecimento científico é "mais verdadeiro" do que outros tipos de conhecimento. Refiro-me apenas à nossa crença nesse tipo de conhecimento. Dizemos que sabemos que os animais evoluem, mas o que significa isso? Quantos de nós realmente sabe alguma coisa da Teoria da Evolução de Darwin, sobre como ela surgiu, quais seus pontos fortes e fracos, ou como se desenvolveu até hoje? Só o que sabemos é o que nos disseram desde pequenos, nada mais do que um "resumo da ópera". Nossa certeza de que isso é verdade vem, principalmente, do fato de que todos ao nosso redor parecem também "saber" disso. É uma "verdade cultural".

Porém, todo cientista sério jamais dirá que realmente conhece, ou que "domina", seu objeto de estudo. Isso porque ele tem noção de quão complexos são tanto o conhecer quanto a realidade. Ele (o objeto) é misterioso, escapa continuamente ao cientista. Mas, se os maiores especialistas não conseguem e nem se arriscam a pôr um ponto final naquilo que tanto estudam, porque é que nós confiamos nossas vidas à certeza da verdade desse saber? Porque é que nós, leigos em Física, Química, Biologia, etc., dirigimos carros, tomamos remédios e fazemos cirurgias, se não por pura fé? É claro, a resposta é que temos "razões" para acreditar nessas coisas…

Mas, todas as bibliotecas e bases de dados digitais do mundo não são nada além de papel, tinta e bits, se o conteúdo ali registrado não estiver "dentro" da cabeça de alguma pessoa. E o que "cabe" na nossa cabeça é, no máximo, tudo o que conseguimos aprender na duração de uma vida e na extensão de um corpo. E isso é quase nada, temporal e espacialmente falando.

No fim das contas, vejo que nós, filhos da C&T (Ciência e Tecnologia), vivemos em condições muito similares à dos católicos na Idade Média. O grande "ser" chamado Igreja Católica é análogo à nossa sagrada Ciência em quase tudo. Afinal, ambas:

a) Tentam dar conta da realidade como um todo através de explicações bem articuladas e convincentes; 
b) Possuem seus especialistas, que são aqueles que definem o que é válido ou não;
c) Apresentam evidências empíricas da verdade de suas afirmações;
d) Determinam o que é verdadeiro e o que não é ao povo de sua época;
e) Possuem "ampla aceitação", ao ponto de ser absurdo ou ofensivo se posicionar contra o que elas dizem; e, principalmente,
f) Existem apenas na mente das pessoas.

Mas, se é assim, o que é o certo a ensinar? As religiões sempre estiveram erradas ou apenas nos parecem assim porque estão fora de seu tempo?


Fonte da Imagem: 
http://static.guim.co.uk/sys-images/Guardian/About/General/2009/7/1/1246434706102/God-and-Darwin-001.jpg

domingo, 13 de fevereiro de 2011

JOGOS DE FUGA (ESCAPE GAMES)

Jogos de fuga constituem uma subcategoria dos jogos de aventura, do tipo "point-and-click", geralmente feitos em Adobe Flash e em perspectiva de primeira pessoa. A temática, que dá o nome ao estilo, consiste, basicamente, num local onde o jogador se encontra preso e do qual deve fugir. Para tanto, ele deverá solucionar enigmas, quebra-cabeças e mistérios, bem como encontrar objetos escondidos e utilizá-los para descobrir a saída. A dificuldade do jogo depende, principalmente, da complexidade dos enigmas e da quantidade de salas ou níveis (andares) que devem ser vasculhados antes de ser possível encontrar a saída.

O estilo parece ter surgido com o jogo Mystery of Time and Space (MOTAS), criado por Jan Albartus, cujo primeiro nível foi lançado em Novembro de 2001. No entanto, sua popularização parece ter ocorrido após Toshimitsu Takagi criar o famoso Crimson Room, em 2004. Apesar do cenário consistir de apenas uma sala, a complexidade dos enigmas e a originalidade do jogo, combinados a uma interessante lógica, são suficientes para prender a atenção do jogador por horas a fio. Hoje, o estilo é bem conhecido na Internet, e ótimos jogos encontram-se à disposição para jogar online e de graça. 

Neste post você encontrará links para diversos jogos de fuga interessantes. Ao lado do link para cada jogo, você encontrará um link para a página com a solução (o chamado Walkthrough). Contudo, sugiro que evitem "colar", pois a graça do jogo está justamente em descobrir como escapar sozinho. Eu costumo dar uma "olhadinha" na próxima pista somente quando o jogo está tão difícil que corre o risco de ficar chato. No Youtube também é possível encontrar muitas soluções em vídeo. É só procurar por: "Nome_do_Jogo Walkthrough".


Mystery of Time and Space (MOTAS)

Você é um observador do espaço-tempo, enviado para aprofundar os conhecimentos sobre essa dimensão. Contudo, para que fosse possível experimentar a dimensão espaço-tempo em sua forma pura, você concordou que apagassem toda a sua memória ordinária, pois ela lhe condicionava a ver o mundo a partir de um único ponto no tempo. O jogo se inicia com você acordando em um quarto, sem a mínima idéia de como foi parar ali.




Crimson Room

Você acorda em um quarto estranho. Apenas lembra que bebeu muito na noite anterior. Ao levantar, verifica que está preso. Tem que encontrar um jeito de escapar...




Viridian Room

Depois de Crimson Room, um novo desafio o espera! Você deverá desvendar um crime para conseguir sair da sala. Excelente jogo de fuga, combina muito bem mistério com sobrenatural, e exige bastante do raciocínio. Divirta-se!




White Chamber

Mais um jogo do autor de Crimson Room. Agora, você apenas lembra ter apagado durante um dia de nevasca. Acorda numa sala branca onde há um portão fechado, uma moto e um painel de vidro que dá para outra sala, ao lado do qual há uma porta, também trancada. Você terá que descobrir como sair dessa!



Switch

Switch faz parte de uma série de jogos de fuga criados pelo japonês Mya. Toda a série conta com excelentes gráficos e permite que o jogo seja salvo e retomado posteriormente. Switch é o mais fácil dos 5 jogos desse autor apresentados neste post. O jogo se passa numa sala laranja, onde se encontram diversos brinquedos espalhados pelo chão.




Sphere

Outro jogo de fuga do japonês Mya. Neste, a dificuldade é maior que no Switch, mas ainda dentro do considerado médio para esse tipo de jogo (bom, eu já considero difícil). Mais uma vez, gráficos excelentes e opção de salvar. Veja se você consegue escapar.




RGB

Outro jogo do Mya, com opção para salvar e belos gráficos (apesar de certas partes da sala parecerem que foram decoradas pelo Wando). Pelo que consta no site, o nível de dificuldade é médio, mas é bom ir temperando os miolos, porque eles vão fritar! O jogo exige perspicácia e bastante raciocínio lógico. Boa sorte!





Lights

Mais um jogo do Mya. Lights é bastante envolvente, e bem exigente. O nível de dificuldade é médio apenas para uma mente minunciosa e atenta. Faz lembrar que, às vezes, pecamos por querer complicar o óbvio... 





Linkage

Penúltimo jogo do Mya apresentado neste post. O cenário agora é mais sombrio, mas os enigmas continuam muito interessantes. Vasculhe tudo, absolutamente tudo. Senão, você pode não conseguir escapar...




Vision

O último jogo de fuga do Mya apresentado neste post. Tão bom em gráficos como os anteriores, Vision já é considerado um jogo de dificuldade alta. Dá um certo trabalho, pois conta conta com diversos enigmas e muitas pistas encadeadas. Qualquer coisa pode ser uma pista. Relacione tudo com tudo e divirta-se!



Com esse jogo, chegamos ao fim do post. Sua finalidade foi a de introduzir aos interessados os chamados "jogos de fuga", apresentando os jogos pioneiros do estilo e alguns de seus principais criadores. Futuramente, novos jogos e autores serão apresentados. Portanto, se você gostou, fique ligado no Pensar!?, e até a próxima.