sexta-feira, 18 de junho de 2010

ENSAIO SOBRE O TEMPO

Introdução
A constatação de regularidades matemáticas no crescimento de plantas e animais, bem como na evolução de dias e noites, nos dá a noção de que o tempo independe da mente que observa, pois este parece fluir de forma constante e absoluta. No entanto, um mesmo acontecimento (como a duração de uma palestra) pode parecer longo para uma pessoa e rápido para outra; ou a duração de um dia, para uma mesma pessoa, pode parecer maior ou menor do que o dia anterior, dando-nos a impressão de que o tempo é relativo ao sujeito em questão.
Com essa observação, podemos pensar, de início, que o nosso corpo percebe o tempo exterior, de alguma forma. Mas, mesmo quando nossos sentidos não estão sendo estimulados pelo ambiente externo (como, por exemplo, quando estamos parados, com os olhos fechados, num ambiente silencioso e de temperatura amena), somos capazes de perceber a passagem do tempo pela simples sucessão dos nossos pensamentos. Isso prova que possuímos um "tempo interno", pessoal, que independe do tempo do mundo.
Por outro lado, apesar de podermos assumir essa postura distanciada, de meros observadores do tempo, através da qual conseguimos constatar a existência de um tempo externo, objetivo, e um outro interno, subjetivo, devemos lembrar que nossa própria existência ocorre no tempo. Ou seja, todas as experiências humanas possíveis, desde observar o pôr-do-sol e ouvir uma música, até a lembrança de um fato passado e o próprio desenrolar desta reflexão sobre o tempo, ocorrem: ou seja, são no tempo.
O estudo do tempo pode se dar, portanto, pelo menos a partir de três perspectivas distintas, cada qual mais ou menos relacionada com uma ou mais áreas da filosofia e das ciências: o estudo do tempo objetivo (o "tempo externo"), relacionado, principalmente, com as diversas áreas da física e com a metafísica; o estudo do tempo subjetivo (o "tempo interno"), relacionado em especial com a psicologia, com as ciências cognitivas em geral, e com a filosofia da mente e da linguagem; e o estudo do tempo enquanto fenômeno (a experiência do tempo), relacionado primariamente com a fenomenologia.
Dessa forma, longe de tentar esgotar o tema ou mesmo de expor as principais questões discutidas atualmente, este texto apenas apresenta, muito brevemente, algumas questões filosóficas a partir de cada uma das três perspectivas mencionadas, com o fim único de "tornar estranho o familiar" e, com isso, a atrair a curiosidade do leitor para o tema.
O "Tempo Externo"
O estudo do tempo como entidade objetiva envolve uma série de reflexões metafísicas. Por exemplo: o que é o tempo? Podemos tentar defini-lo com base nas evidências que temos de sua existência. Conseguimos perceber a passagem do tempo porque conseguimos perceber mudanças nos estados das coisas no mundo. Assim, sabemos que existem diferenças entre o dia e a noite, e que essas diferenças ocorrem gradualmente. Percebemos mudanças na localização espacial de uma pessoa que anda, e assim por diante. Podemos pensar, inicialmente, que o tempo se reduz à mudança. Mas, mudança em que nível? Uma rocha em erosão muda com o tempo, mas numa velocidade bem menor do que a mudança que ocorre no corpo de uma criança em crescimento. Se a mudança ocorre mais lentamente, significa que o tempo corre mais devagar para a rocha? Ou o tempo flui na mesma velocidade para todos os seres, viventes ou não, independentemente da velocidade com que eles mudam?
Ou, ainda: e se o universo inteiro simplesmente parasse, de repente? Se toda mudança cessasse, se até mesmo todos os pensamentos parassem, estaria o tempo, também, parado? E se, logo em seguida, todo o universo voltasse a se mover, seria possível afirmar que houve uma duração na parada do tempo? Mas o que seria essa duração senão o próprio tempo?
Essas são apenas algumas questões que nos mostram quão insignificante é o nosso conhecimento sobre o assunto.
O "Tempo Interno"
O estudo do tempo como entidade ontologicamente objetiva está indissociavelmente ligado à nossa percepção. Sermos capazes de formular questões sobre o tempo significa, antes de tudo, que somos capazes de perceber algo para o qual damos o nome de tempo. Mas, de onde vem essa capacidade? Se é resultado de processos mentais específicos ou se é uma estrutura nata do nosso ser, o que é isso que pré-existe a própria manifestação do tempo para nós? É possível algo pré-existir àquilo que lhe determina? E como podemos entender algo que pré-existe o tempo se estamos limitados a pensar tudo em termos temporais?
Essas reflexões trazem ainda outras questões, de natureza mais epistemológica: se há algo em nosso ser que permite e ao mesmo tempo limita nossa apreensão do tempo, quais são, pois, os limites do nosso saber sobre o tempo, tanto objetivo quanto subjetivo? E quais os limites do nosso conhecimento sobre o mundo, considerando que esse conhecimento é por sua vez limitado pela forma como apreendemos o tempo?
Além de tudo o que já foi dito, é evidente que experimentamos a passagem do tempo de forma substancialmente diferente da forma como a pensamos, pois, como já foi dito na introdução, alguns minutos podem “durar” horas quando fazemos algo desagradável, da mesma forma que quando nos divertimos, o tempo parece voar. Quanto a isso, algumas perguntas surgem de pronto: por que há essa diferença na “contagem” do tempo? Como podemos diferenciar o tempo objetivo do subjetivo se percebemos ambos como sendo a mesma coisa, ou seja, tempo? Há realmente “dois tempos”? Se sim, eles possuem a mesma estrutura, ou a mesma velocidade? Eles se relacionam?
O Tempo Enquanto Fenômeno
De qualquer forma, é graças ao nosso “tempo interno”, somos capazes de perceber a simultaneidade ou a sucessão de eventos, sua ordem e duração (ainda que a expressemos em termos como "longa" ou "curta", "maior" ou "menor") e se um evento está no futuro (se ainda é imaginário), no presente ou no passado. Contudo, além de pensarmos sobre o tempo objetivo ou subjetivo, sobre o que cada um deles é e como funcionam, de uma perspectiva distanciada, como se fôssemos meros observadores de um algo que nos é exterior ou que nos determina, podemos também pensar no tempo como experiência pessoal, considerando-a como um todo. Afinal, tudo o que fazemos e pensamos fazemos e pensamos no tempo.
Esse é o objetivo da fenomenologia: analisar o tempo enquanto fenômeno, ou seja, tal e qual ele se apresenta para nós, como experiência. E, para esse ramo da filosofia, o tempo é fundamental, pois compõe os alicerces de todos os demais fenômenos que fazem parte da nossa experiência. Tudo que vivenciamos, apresenta-se a nós no tempo. Viver, por si só, é estar no tempo. Toda nossa linguagem e nossa capacidade cognitiva é determinada e viabilizada pela temporalidade.
Dessa forma, para olhar para o tempo enquanto fenômeno é preciso olhar para ele em “primeira pessoa”. Por exemplo: o momento em que eu estou escrevendo estas linhas está, pouco a pouco, se tornando passado na minha experiência (mas, de alguma forma, mesmo “passando”, elas ainda estão presentes na minha experiência, caso contrário, não conseguiria escrever nenhuma frase com sentido). Posteriormente, no momento em que você, leitor, chegar até elas, elas farão parte do seu presente assim como estarão inteiramente no meu passado. Quando, futuramente, você refletir sobre o que leu aqui, estará, no seu futuro presente, vivendo a experiência de lembrar de uma experiência passada. Em seguida, quando deixar de pensar nisso tudo e for dormir, tudo isso será passado. Complicado? Que nada, esse apenas nosso dia-a-dia. Complicado é tentar explicar tudo isso e, no final, tudo continuar a fazer tanto sentido quanto faz ir ao cinema e depois jantar antes de visitar um amigo no domingo que vem. Essa é a tarefa da fenomenologia do tempo.
Bibliografia
DOWDEN, Bradley. Time. Internet Encyclopedia of Philosophy. Disponível em: http://www.iep.utm.edu/time. Acesso em: 02 fev. 2010.
MARKOSIAN, Ned. Time. Stanford Encyclopedia of Philosophy. Disponível em: http://plato.stanford.edu/entries/time. Acesso em: 02 fev. 2010.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

O Diálogo Filosófico
Uma boa palavra para definir a Filosofia é “diálogo”. Filosofar é, antes de tudo, dialogar, pois pensamentos interessantes não se constroem a partir de uma mente só, já que, como seres humanos, somos limitados no espaço e no tempo. Todo homem só é capaz de construir teorias que contemplem sua própria visão de mundo. No entanto, mesmo esta não é genuinamente sua pois, em todos os casos, se forma por intermédio de muitas pessoas. Por vezes, idéias geniais, brilhantes, são atribuídas exclusivamente a seu autor, mas todos se esquecem que elas o são justamente por resistirem, quase intactas, ao escrutínio do livre questionamento e do inescrupuloso tempo.
É evidente que grandes pensamentos não “brotam do nada”: são elaborados ao longo de uma vida, ou de várias, e através de muitos remendos e reformulações. E o que é a elaboração de um pensamento senão sua construção verbal, de forma que possa ser transmitido a outros, seja através de textos escritos ou oralmente? Se pensarmos bem, para qualquer pessoa, o momento de expor suas idéias ao mundo é o resultado de um grande processo de elaboração mental, para o qual já contribuíram inúmeras outras pessoas.
Com isso, pode-se afirmar que, apesar do que dizem as aparências, Filosofia nunca se faz sozinho. A idéia pode ser sua, você pode tê-la escrito inteiramente, mas jamais ela terá surgido por mérito única e exclusivamente seu. Seus pais, amigos, vizinhos, colegas e até completos desconhecidos; a mídia, o governo, a comunidade, a igreja e outras instituições; outros povos e culturas; enfim, todas as pessoas e idéias que fizeram parte da sua vida, direta ou indiretamente, tiveram sua parcela de contribuição para que seu pensamento saísse exatamente como saiu.
Bom, se por um lado não há pensamento de autoria exclusiva de uma única pessoa, também não há pensamento válido sem a interação com o mundo, sem viver no mundo. Filosofia é, pois, fruto da contemplação da realidade humana. Qualquer pensamento que a desconsidere jamais poderá ser considerado filosófico. Será poesia, mito, ou apenas pura fantasia, isso se não for visto como bobagem ou loucura e cair no ostracismo.
No nascimento de um pensamento é possível percebermos outra característica do diálogo: a interiorização do conteúdo, a reflexão sobre o que está sendo pensado. Mas, a Filosofia, diferentemente de em um diálogo comum, não se satisfaz com uma mera opinião ou com o consenso entre os participantes. O diálogo dito filosófico é verdadeiro, nele os envolvidos estão realmente interessados em esgotar todas as possibilidades do próprio diálogo e da razão, pois dialogar verdadeiramente significa mais do que ser sincero, significa estar disposto a ir até as últimas consequências da crítica e da argumentação. Não apenas as idéias apresentadas devem ser coerentes e bem fundamentadas: estarão em debate também os seus próprios pressupostos e os fundamentos sobre os quais ela se apóia, numa tentativa de dar coerência ao todo.
Nessa busca pela unificação do pensamento, este volta-se sobre si mesmo e, de repente, o assunto torna-se o pensar. O diálogo filosófico é, pois, reflexivo, ou seja, na discussão sobre a realidade, o filósofo volta-se sobre o real. Sobre aquilo que existe, o filósofo ocupa-se do existir, da existência. Na busca por saber o que as coisas são, ocupa-se do “são” e vai atrás do “ser” das coisas. Do conhecimento, busca o conhecer, seus limites e possibilidades; e assim por diante.
Por fim, o diálogo filosófico está permanentemente aberto a todos os interessados. Ou seja, o resultado de todo esforço dialógico, para que possa ser considerado filosófico, deve ser submetido à crítica, à análise inter paris, e deverá e vencê-la mediante uma boa argumentação. Esse é o preço da liberdade: o respeito para com a liberdade do outro. Aqui, não adianta gritar para ser ouvido, pois quem escuta é a razão. É, pois, condição sine qua non para o verdadeiro diálogo filosófico saber justificar posições, se se espera que mais alguém concorde com o que está sendo dito. De outra forma, haveria apenas um monólogo: eu falo e você escuta. No diálogo verdadeiro, em especial naquele em que se pretende entender melhor o mundo e produzir conhecimento, é preciso que a via seja de mão dupla. E isso implica saber criticar e ser criticado.
Portanto, se alguém espera ser ouvido, ou seja, se espera um dia ser levado a sério, é bom que aprenda, o quanto antes, a criticar e a receber críticas da melhor forma possível, tendo a plena consciência que nas pontas de cada diálogo, intermediando e analisando pensamentos, encontram-se seres que, por sua condição humana, não nasceram vendo a crítica como algo construtivo e indispensável, como crítica ao pensamento e não ao pensador. Nesse ponto, o verdadeiro filósofo deve, sim, ter tato ao dizer o que pensa, mas principalmente, deve conseguir distinguir-se de seu próprio pensamento sem perder sua identidade. Só assim ele será capaz de atingir distância suficiente de sua obra para que possa ver o todo e para aceitar as críticas. Só assim, também, ao analisar as críticas recebidas, conseguirá separar as pertinentes das inócuas, já que é naquelas que está o potencial para o progresso, para que possa dar prosseguimento a suas pesquisas e a aperfeiçoar sua idéia inicial.
Aqueles que já tiveram de enfrentar a crítica sabem, de alguma forma, que são de grande valia qualidades como a humildade, a paciência, a perseverança (e, é claro, um profundo conhecimento sobre o tema em questão), e quão terríveis são as consequências da precipitação, do preconceito e do egocentrismo. O pior momento talvez seja aquele em que o pensamento é exposto ao erro. É o momento a partir do qual a idéia, em parte ou totalmente derrubada, deverá ser reavaliada e, se possível, reconstruída, senão, abandonada. Esse é um dos momentos mais difíceis de manter-se à distância da idéia, pois uma falha encontrada nesta implica necessariamente uma falha naquele que a criou. Mas, não é esse um dos maiores desafios verdadeiramente humanos: o de conseguir ver e aceitar as próprias falhas? Sem isso, não se produz conhecimento, e não se permite ao homem superar-se a si mesmo.
Dizer que filosofar é dialogar é, portanto, dizer que é necessário o outro; que é necessário estar no mundo e trocar experiências, que é necessário desenvolver, voluntária e conscientemente, a capacidade de se auto-aperfeiçoar. Dizer que filosofar é dialogar é compreender que a Filosofia não foi criada pela mão e pela vontade de um: ela é, hoje, como em cada momento de sua existência, o estado atual de um processo de árdua elaboração em constante desenvolvimento, que perpassa vidas e vidas, séculos e séculos. É processo jamais concluso e sempre renovado, que perdurará enquanto houver inquietação na alma humana.
Em suma, sem diálogo verdadeiro, sem Filosofia, o homem jamais será de fato livre, pois ser livre é poder expressar-se dentro do limite da liberdade do outro. Sem diálogo verdadeiro, o homem jamais entenderá sua própria humanidade, pois ser humano é superar-se continuamente. Sem Filosofia, o ser humano jamais conhecerá o mundo ou a si mesmo: ele estará condenado a permanecer confinado no mundo por ele criado para aquele que ele acha que é.

quarta-feira, 9 de junho de 2010



Povoe sua mente, deixe-a passear livremente
Se ela estiver aberta, você poderá ver
Além da linha invisível, entre o aqui e a lucidez
O Tempo não é Haver


Sigam o espelho e olhem pra vocês
Infinitamente...

Deixem o vento levar a poeira
A estafa do enlouquecer
Deixem a realidade padecer
O que quer que seja, não é verdadeira

Sigam o espelho e olhem outra vez
Inexoravelmente...

Alimentem seus olhos sempre com fogo
De nada adianta resistir
Sempre lhes será alheio o novo
Ouçam, no silêncio, o Leão a rugir

Sigam os passos do Velho e sua insensatez
Ele carrega o espelho da Nitidez
Inocuamente...