Introdução
A constatação de regularidades matemáticas no crescimento de plantas e animais, bem como na evolução de dias e noites, nos dá a noção de que o tempo independe da mente que observa, pois este parece fluir de forma constante e absoluta. No entanto, um mesmo acontecimento (como a duração de uma palestra) pode parecer longo para uma pessoa e rápido para outra; ou a duração de um dia, para uma mesma pessoa, pode parecer maior ou menor do que o dia anterior, dando-nos a impressão de que o tempo é relativo ao sujeito em questão.
Com essa observação, podemos pensar, de início, que o nosso corpo percebe o tempo exterior, de alguma forma. Mas, mesmo quando nossos sentidos não estão sendo estimulados pelo ambiente externo (como, por exemplo, quando estamos parados, com os olhos fechados, num ambiente silencioso e de temperatura amena), somos capazes de perceber a passagem do tempo pela simples sucessão dos nossos pensamentos. Isso prova que possuímos um "tempo interno", pessoal, que independe do tempo do mundo.
Por outro lado, apesar de podermos assumir essa postura distanciada, de meros observadores do tempo, através da qual conseguimos constatar a existência de um tempo externo, objetivo, e um outro interno, subjetivo, devemos lembrar que nossa própria existência ocorre no tempo. Ou seja, todas as experiências humanas possíveis, desde observar o pôr-do-sol e ouvir uma música, até a lembrança de um fato passado e o próprio desenrolar desta reflexão sobre o tempo, ocorrem: ou seja, são no tempo.
O estudo do tempo pode se dar, portanto, pelo menos a partir de três perspectivas distintas, cada qual mais ou menos relacionada com uma ou mais áreas da filosofia e das ciências: o estudo do tempo objetivo (o "tempo externo"), relacionado, principalmente, com as diversas áreas da física e com a metafísica; o estudo do tempo subjetivo (o "tempo interno"), relacionado em especial com a psicologia, com as ciências cognitivas em geral, e com a filosofia da mente e da linguagem; e o estudo do tempo enquanto fenômeno (a experiência do tempo), relacionado primariamente com a fenomenologia.
Dessa forma, longe de tentar esgotar o tema ou mesmo de expor as principais questões discutidas atualmente, este texto apenas apresenta, muito brevemente, algumas questões filosóficas a partir de cada uma das três perspectivas mencionadas, com o fim único de "tornar estranho o familiar" e, com isso, a atrair a curiosidade do leitor para o tema.
O "Tempo Externo"
O estudo do tempo como entidade objetiva envolve uma série de reflexões metafísicas. Por exemplo: o que é o tempo? Podemos tentar defini-lo com base nas evidências que temos de sua existência. Conseguimos perceber a passagem do tempo porque conseguimos perceber mudanças nos estados das coisas no mundo. Assim, sabemos que existem diferenças entre o dia e a noite, e que essas diferenças ocorrem gradualmente. Percebemos mudanças na localização espacial de uma pessoa que anda, e assim por diante. Podemos pensar, inicialmente, que o tempo se reduz à mudança. Mas, mudança em que nível? Uma rocha em erosão muda com o tempo, mas numa velocidade bem menor do que a mudança que ocorre no corpo de uma criança em crescimento. Se a mudança ocorre mais lentamente, significa que o tempo corre mais devagar para a rocha? Ou o tempo flui na mesma velocidade para todos os seres, viventes ou não, independentemente da velocidade com que eles mudam?
Ou, ainda: e se o universo inteiro simplesmente parasse, de repente? Se toda mudança cessasse, se até mesmo todos os pensamentos parassem, estaria o tempo, também, parado? E se, logo em seguida, todo o universo voltasse a se mover, seria possível afirmar que houve uma duração na parada do tempo? Mas o que seria essa duração senão o próprio tempo?
Essas são apenas algumas questões que nos mostram quão insignificante é o nosso conhecimento sobre o assunto.
O "Tempo Interno"
O estudo do tempo como entidade ontologicamente objetiva está indissociavelmente ligado à nossa percepção. Sermos capazes de formular questões sobre o tempo significa, antes de tudo, que somos capazes de perceber algo para o qual damos o nome de tempo. Mas, de onde vem essa capacidade? Se é resultado de processos mentais específicos ou se é uma estrutura nata do nosso ser, o que é isso que pré-existe a própria manifestação do tempo para nós? É possível algo pré-existir àquilo que lhe determina? E como podemos entender algo que pré-existe o tempo se estamos limitados a pensar tudo em termos temporais?
Essas reflexões trazem ainda outras questões, de natureza mais epistemológica: se há algo em nosso ser que permite e ao mesmo tempo limita nossa apreensão do tempo, quais são, pois, os limites do nosso saber sobre o tempo, tanto objetivo quanto subjetivo? E quais os limites do nosso conhecimento sobre o mundo, considerando que esse conhecimento é por sua vez limitado pela forma como apreendemos o tempo?
Além de tudo o que já foi dito, é evidente que experimentamos a passagem do tempo de forma substancialmente diferente da forma como a pensamos, pois, como já foi dito na introdução, alguns minutos podem “durar” horas quando fazemos algo desagradável, da mesma forma que quando nos divertimos, o tempo parece voar. Quanto a isso, algumas perguntas surgem de pronto: por que há essa diferença na “contagem” do tempo? Como podemos diferenciar o tempo objetivo do subjetivo se percebemos ambos como sendo a mesma coisa, ou seja, tempo? Há realmente “dois tempos”? Se sim, eles possuem a mesma estrutura, ou a mesma velocidade? Eles se relacionam?
O Tempo Enquanto Fenômeno
De qualquer forma, é graças ao nosso “tempo interno”, somos capazes de perceber a simultaneidade ou a sucessão de eventos, sua ordem e duração (ainda que a expressemos em termos como "longa" ou "curta", "maior" ou "menor") e se um evento está no futuro (se ainda é imaginário), no presente ou no passado. Contudo, além de pensarmos sobre o tempo objetivo ou subjetivo, sobre o que cada um deles é e como funcionam, de uma perspectiva distanciada, como se fôssemos meros observadores de um algo que nos é exterior ou que nos determina, podemos também pensar no tempo como experiência pessoal, considerando-a como um todo. Afinal, tudo o que fazemos e pensamos fazemos e pensamos no tempo.
Esse é o objetivo da fenomenologia: analisar o tempo enquanto fenômeno, ou seja, tal e qual ele se apresenta para nós, como experiência. E, para esse ramo da filosofia, o tempo é fundamental, pois compõe os alicerces de todos os demais fenômenos que fazem parte da nossa experiência. Tudo que vivenciamos, apresenta-se a nós no tempo. Viver, por si só, é estar no tempo. Toda nossa linguagem e nossa capacidade cognitiva é determinada e viabilizada pela temporalidade.
Dessa forma, para olhar para o tempo enquanto fenômeno é preciso olhar para ele em “primeira pessoa”. Por exemplo: o momento em que eu estou escrevendo estas linhas está, pouco a pouco, se tornando passado na minha experiência (mas, de alguma forma, mesmo “passando”, elas ainda estão presentes na minha experiência, caso contrário, não conseguiria escrever nenhuma frase com sentido). Posteriormente, no momento em que você, leitor, chegar até elas, elas farão parte do seu presente assim como estarão inteiramente no meu passado. Quando, futuramente, você refletir sobre o que leu aqui, estará, no seu futuro presente, vivendo a experiência de lembrar de uma experiência passada. Em seguida, quando deixar de pensar nisso tudo e for dormir, tudo isso será passado. Complicado? Que nada, esse apenas nosso dia-a-dia. Complicado é tentar explicar tudo isso e, no final, tudo continuar a fazer tanto sentido quanto faz ir ao cinema e depois jantar antes de visitar um amigo no domingo que vem. Essa é a tarefa da fenomenologia do tempo.
Bibliografia
DOWDEN, Bradley. Time. Internet Encyclopedia of Philosophy. Disponível em: http://www.iep.utm.edu/time. Acesso em: 02 fev. 2010.
MARKOSIAN, Ned. Time. Stanford Encyclopedia of Philosophy. Disponível em: http://plato.stanford.edu/entries/time. Acesso em: 02 fev. 2010.
Olá, Ilusão. Tentanto dialogar um pouco sobre a questão do tempo e das pedras, que muito me interessa. Não me parece razoável pensar que o tempo "haja" nas coisas, como uma propriedade mórfica. Eu "entendo" o tempo como uma dimensão não de todo conhecível, através da qual, mas também do espaço, as várias coisas existentes do real interagem, dentro da unidade desse real. Assim, não é que o tempo passe mais lentamente para a pedra e mais rapidamente para o bebê: o tempo, enquanto dimensão através da qual as coisas efetivamente acontecem, que não pode, no entanto, enquanto ente objetivo, ser entendido separada da esfera do espaço, o tempo é o mesmo: o que muda são as condições físicoquímicas e biológicas, numa palavra, espaciais, que são mais ou menos suscetíveis à mudança mediante outras propriedades, agentes de fora, poderíamos dizer, que consigo interagem no tempo, nessa presumível ordem que subjaz ao real. O fato de pensarmos que o Tempo com T pode passar mais rápida ou mais lentamente se deve a que nós, que somos zoon logikón, temos um aparato de base biológica e de implicações culturais que nos permite ter um ponto de vista em relação ao tempo, existindo assim tempos com t, subjetivos, e que, dentro da comunidade, nas relações por vezes contraditórias entre subjetividade e alteridade, constitui uma noção intersubjetiva de tempo, que, se por um lado nos permite falar de tempo, por outro, nos deixa, como diria Einstein, uma hora que se passou como minuto com uma mulher agradável, e minuto que se passou como uma hora estando eu sentado numa chapa de ferro quente.
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