a história de um rapaz do mundo do roque
e de uma mina que costuma falar em morte
que, tendo a filosofia e o roque para papear
resolveram, os dois, amigos se tornar
numa noite se encontraram, lá na praça do CE
pra falar só de bobagens, nada sério, espairecer
ela e ele e um outro, muito agradáveis companhias
falariam até a hora que o ônibus do roqueiro sairia
nessa noite peculiar, de nuvens turvas no céu
vento fresco e vadio rodopiando, a assuntar
como que prevendo a briga que ali teria lugar
acalmou-se o vento, e o céu mais se enturveceu,
os dois se preparando para o iminente escarcéu
nessa noite, amigos, nada havia de belo
já havia se enfeado pelos breves brevemente idos
menos ainda, nela se havia de beleza encontrar
após esses eventos, que hei de lhes narrar,
e que da face da Terra já deviam ter sido banidos
e banidos deviam ser, mas não por força,
ora, se houveram, por isso mesmo, nascido
e sim pelo esforço intelectual de cada indivíduo
e é por isso que em cordel eu lhes conto o acontecido
estavam lá, entao, a mulher, o moço e o amigo
todos muito entretidos e entusiasmados
até que o amigo, curioso da vida do moço
perguntou-lhe sobre um projeto seu, bem afamado,
aquele, de uma banda de roque com o irmão,
perguntou-lhe, intrigado: que é que tinha acontecido?
o moço respondeu que o projeto não havia dado
nem frutos, nem diversão, somente com os burros n’água
é que o irmão, como ele, gostava de roque tipo défi-métau
mas como, para o moço, só o brútau-défi-métau era honrado
preferiu terminar a parceria, a tocar melódicau-défi-métau
e saiu irmão pra cada lado, como se ambos, com isso, houvessem ganhado
veja que egoísmo, deste moço, que diz somente a música amar
essa não fora a primeira vez, que dera um fora de lascar
ora, que numa outra certa noite disse a mulher a ele: “você não gosta de música”
o silêncio na mesa reinou, todos aguardantes da crítica
o moço ficou logo todo ouriçado, ofendido, vocês precisavam ver
nem sequer pensou em querer saber
porque é que que a moça proferira aquele enunciado
é que ele que dizia de música gostar, apenas roque pesado ouvia e reconhecia
e de tudo que não fosse isso muito mal para sempre lhe faria
do xote ao baião, do forró ao brega, MPB, bossa nova, samba
do pópi-roque as românticas, do répi ao pânque, tango, mambo, seresta
maracatu, bumba-meu-boi, frevo, cantoria
até mesmo o fânque e o arrocha, nada disso ele reconhecia
para ele, tudo isso era nada que pra nada jamais prestaria
vêem que doidice a desse moço,
gostar de um único estilo musical
e dizer que ama a música, quando o que ama é estilo tal
que a maioria do mundo nem isso de música chama?
ele não ama a música, ama a droga na veia que é tocar
e essa droga ele só sente quando a guitarra faz gritar
mas não de qualquer forma, somente nas notas velozes
do técnicau-défi-métau ou do brutal
somente aí, com sua amante perfeita, sente-se total
coitado do moço… perde a vida vivendo tao pequenamente
nem de música ele gosta, mas vive a ilusão de gostar
e essa droga pôs-lhe a perder oportunidade valiosa, imensamente
de criar, de musicar, com o irmão, seu companheiro
pois nem por essa música que diz amar
nem pelo irmão, que ama, efetivamente
foi capaz o moço de ceder, e aprender algo verdadeiro
jogou no lixo a oportunidade, a habilidade e a criação
mas isso, amigos, é passado, voltemos dessa pequena digressão
ela serviu para contextualizar o ódio do moço no coração
mas a história que vim dizer não foi essa, mas a primeira
aquela que eu parei no apartamento dos irmaos
seguiram, entao, cada um a sua vida,
disse o moço que assim havia sido
e que na mente dele um novo projeto já havia nascido
mas que faltava uma banda para com ele tocar
obviamente, um grupo de gente todos dispostos a com ele concordar
e renegou Joao Pessoa, por não conseguir, nela, seus súditos juntar
disse que aqui não há roque que preste
que a cidade é boa pra beber nas suas ruas, praças e sarjetas
mas que boa música, bons músicos, aqui, não resta
e que a cidade negava a esse roque aceitar
dele, não queria nem gorjeta
será que é por que Jampa prefere o reggae, o forró e a cantoria?
sinceramente, menos briga é certo que teria
e até a moça que é bem fa do mais pesado dos pesados roques
adora, também, um bom reggae e um bom forró: é pura harmonia!
e aí, a moça, de mente toda confusa
em meio a tantos nomes e divergências absurdas
apenas disse, brincando, numa entonação bem matuta
“défi-métau, brútau-défi-métal, técnicau, melódicau, défi-cor, darque e fôlqui-metal
isso tudo aí pra mim, ó, não tem sentido
essa denominação toda é só ruído
a mim me basta saber o que me toca
o resto é o que eu não gosto e pouco importa”
ah, pra que disse isso? Falara ingenuamente, brincando,
mas o moço ficou, novamente, ofendido
e foi aí que evidenciou-se o que deveras havia acontecido
é que a moça falara com indiferença, chacoteando
daquilo que, com mais orgulho, o moço tinha desenvolvido:
a sabedoria de saber o que quase ninguém sabia.
e essa sabedoria imponente, não era filosofia, ciência ou poesia
não era sequer “arte bandida”
era tao somente “nomenclaturia"
e com essa régua a moça já havia sido medida
mais ainda! é que o nosso moço,
ao ouvir o caçoar sem má intençao
percebeu, no dizer da moça, sua maldição:
a pequenez do seu saber,
ficou, ele, obrigado a reconhecer
e por isso tomou a verdade como ofensa
daí, pra baixaria ele partiu e a moça agrediu
de modo tal, que, hoje, quase já não mais se vê
ouçam, amigos, o que, neste cordel, há ainda de suceder
pois bem que o rapaz bem tentou, mas evadir-se não conseguiu.
o que houve foi que o moço tomou, com as dores, a palavra
e afirmou que as MULHERES, vejam bem,
as mulheres não conseguiam a sutileza perceber
que as mulheres sao INCAPAZES dos sub-estilos aprender
e que incapazes o são POR NATUREZA.
“ora essa, que diabos é isso?” — pensou a moça
“eu, depois dos trinta, me ver ainda diante desta arena?
que mundo é esse onde mulher tem como serviço
para garantir ao homem ser grande, tornar-se ela mesma pequena?”
e num salto, reagiu:
“como é, meu irmão? Que viagem é essa aí?
estás dizendo que a mulher é burra
por que não detém esse teu “saber” de sagui?
não pensas que apenas possa ser
que ela apenas nao liga pra isso
e que é tu que berras aos quatro cantos que é pequeno o que mais valorizas?”
“nunca te passou pela cabeça
que as mulheres que tu conheceste até hoje
ou são só PESSOAS burras (se é que as há), ou mulheres coerentes,
que não se importam com coisas desimportantes?”
lembrem-se, amigos, de que, pelo moço envaidecer
não importara nem ao irmao escarnecer:
abandonara coisa tao bela, projeto músico-fraternal
por essa conceptualizaçao de merda que só faz mal…
mas, isso não se disse, e o moço respondeu
e com isso a conversa entre eles assim se deu:
— não, não é assim. É fato que as mulheres são incapazes de aprender
e os diferentes estilos musicais reconhecer.
eu sei, eu vi.
— mas, e as musicistas? As bateristas, guitarristas, e tantas mais
não são elas capazes de discernir?
— ah, essas aí, entendem, sim
— entao me diga, meu caro, se instrumentista não tem gênero?”
— Como assim?
— ora, pergunto-lhe se são homens as mulheres
dessas bandas de róqui-qualquer-coisa-métau
— Sim, é como se fossem.
descrente ainda com tamanha estupidez
insistindo já com fé na profundidade da alma humana
resolveu a moça formular o ataque machista expressamente
internamente, contudo, duvidava:
“até agora não deu, será que a coisa ainda anda?”
-- estás percebendo que o que dizeste?
que a mulher é incapaz de aprender,
que é burra POR SER MULHER? --
e o moço disse -- sim, é!
tao logo essas palavras saíram de sua boca,
o chuvisco sobreveio,
a noite enegreceu-se, infinitou-se
o vento cessou, do choque de ver amizade tao pouca
e um gato que passava, lamentou: “que fêeio, que fêeio…”
e foi isso, meus amigos, a mais pura verdade
esse meu relato, que eu havia de transmitir
de divulgar, jamais assentir
com tamanha violência,
depois de tanta insistência,
sofrimento e suor
depois das lutas de decênios após milênios de dor
das mulheres desse mundo que ainda as rejeita
como humanas inteiramente, igualmente, simplesmente
meu silêncio, aqui, seria mais que covardia: crime!
e agora, depois de tamanho coice, quem é que vai duvidar?
que o moço da nossa história, covarde e mesquinhamente
é incapaz de autocrítica, humildade e de compartilhar
e agora não pode mais negar o que ele mais teme:
que o mundo inteiro descubra
o quanto ele mesmo se acha impotente.

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