Questionada
acerca da minha descrença em divindades, especificamente no tocante a
eu já ter adotado minha posição como sendo de caráter conclusivo,
respondi o que se segue:
Crer
na inexistência de algo é, em termos lógicos, até mais absurdo que crer
na existência de unicórnios, justamente porque não há evidências
possíveis para a inexistência. Não é possível provar que algo não existe
porque provas são marcas na existência, logo, eu não "concluí" que
deuses não existem, eu meramente resolvi ser honesta para comigo mesma e
aceitar que eu não creio neles, e que, quando cria, o fazia sem ter
fortes evidências ou boas razões.
Pois é, minha crença é de que "eles" não existem. Ora, eu me comporto como quem não crê nisso; eu me sinto
dessa forma; eu não me pego orando nos momentos difíceis, nem
suspeitando que meus atos ou meus pensamentos estão sendo observados (ou
de alguma maneira, conhecidos) por alguma entidade superior; nem sinto
que há algum sentido oculto na vida que não seja um que eu mesma tenha
criado. Quando eu fiz essa análise interior, sendo franca comigo mesma,
encontrei essa crença lá. Só o que eu fiz foi admiti-la abertamente.
Contudo, isso foi uma análise a posteriori, feita muito depois de
eu ter passado a crer que deuses não existem. Na verdade, esta nem
sempre foi a minha crença basilar, nesse assunto. Mas ela, também, não
surgiu do nada.
Surgiu,
sim, ao analisar cuidadosamente as evidências que eu possuía da
existência de deus e vê-las cair, com espanto e horror, uma a uma. Foi
ao analisar, dolorosamente, as razões que sustentavam minhas crenças e
ao perceber que eram frágeis, que nem mesmo constituíam argumentos,
muitas vezes, foi somente aí que percebi que tudo aquilo sobre o que
havia me baseado para guiar minha vida -- o afirmar categoricamente a
existência de "algo" (deus, força superior, teleologia ou, meramente,
mundo espiritual distinto do material) -- não passava de autossugestão,
ou autoilusão, se preferir.
Daí,
fiquei numa posição verdadeiramente cética por um tempo. Mas isso não é
pacífico, é desesperador! É insuportável para a alma! Ela pende
obrigatoriamente para um dos lados que conhece! Somente em nível do
raciocínio, em termos lógicos, podemos nos dizer céticos, pois de outra
forma temos dúvidas, sim, mas há algo que cremos no fundo, no fundo.
Algo em redor de que as dúvidas se levantam; um algo que já está lá, que
não fica oscilando a cada pensada, a cada volta que o pensamento dá ao
duvidar. Nem são dúvidas verdadeiras, eu diria, que se erguem, mas mero
medo do engano, medo mesmo do desconhecido estar ainda à espreita e você
estar correndo o risco de ser pego desprevenido.
Dúvida
verdadeira acerca da existência de deus seria o que? "Será que deus
existe?" Isso é uma mera formulação de uma crença que é consciente
enquanto a crença que é: "Eu creio em deus, Ele existe -- isto é
certo -- e a perfeição (que também existe) é do domínio d'Ele. Logo, a
imperfeição está do lado de cá, em mim e em todos como eu. Sendo assim,
será que eu estou certa? Não é ao menos possível que eu esteja
enganada, ou melhor, que eu tenha estado enganada, durante toda a
vida, em crer na existência desse ser fabuloso que, de fato, é?" Essa é a
correta formulação do ceticismo intelectual, que é, ainda, um ceticismo
teísta. Nesse ponto, está-se um nível acima do ceticismo de alma, do
verdadeiro ceticismo, aquele que flutua no caos sem fundamento algum.
Aquele é, ainda, o estado do "será?". O ceticismo de alma é o estado do
"???": completamente perdido de si, incapaz de sequer formular uma
sentença que expresse sua situação de "perdição". E foi isso o que
ocorreu comigo.
Mas,
antes do "???" veio um forte "!!!". Isso se deu quando percebi que a
dúvida inicial, a que me levara à busca que resultara nesse estado de
"susto" antes da confusão geral, não era uma dúvida genuína sobre a
existência de deus, mas uma genuína dúvida de se eu poderia estar
enganada em crer nisso. Enquanto a possibilidade da falha (a
possibilidade de inexistir) era atribuída a deus, eu não conseguia
duvidar. Foi somente quando eu mudei o foco para mim, que sou, certa e
irrevogavelmente, falha (e isso não havia como negar), foi somente aí
que consegui uma "brecha" na minha fé pra miná-la por dentro. Mesmo
assim, daí em diante, o caminho, apesar de inevitável, continuou
difícil.
Com
muita dor e esforço e resistência da minha força de vontade de querer
saber eu fui minando, uma a uma, as razões que eu cria serem muito boas
(mas se demonstraram frágeis, como já dito), e as evidências tão
evidentes aos poucos se mostraram enganos igualmente possíveis. Então,
somente ao constatar, sem conseguir divisar saída, que não tinha razões
suficientes, nem evidências garantidoras dessa crença ter
verdadeiramente um "algo" por detrás que a sustentasse, que eu aceitei a
possibilidade de olhar a existência de deus (um fato) como uma mera crença (um juízo). E foi justamente isso que me assombrou: o
mero vislumbre numa existência a-divina foi um tremendo susto! Mas, aí,
já tinha dado o derradeiro passo, não tinha como fingir que não tinha
percebido um além, que meu horizonte hermenêutico não havia sido
estilhaçado.
O
universo, então, se dissolveu diante dos meus olhos. Esse "lado de lá"
era como que um caos que não se mexia, algo muito, muito, muito
estranho. As coisas não eram mais sólidas, apesar de ainda estarem todas
lá. Algum absurdo as mantinha unidas, dispostas, o tempo e o espaço
aparentemente dentro dos conformes perceptivos de sempre. Passei umas
duas semana meio maluca, pensando o tempo todo "o que é real? o que é
real?" Tive a sensação de estar pirando! Foi PUNK!
Levei
cerca de dois anos pra reconstruir meu "universo [sem] deus e tudo
mais". Átomo por átomo tive que reconstruir, e era tão gigantesca a obra
que não havia como não me apegar a crenças prontas, dadas em certo
nível, para construir em cima delas. Principalmente no início, pois eu
precisava de um solo firme a fim de sair do desespero em que eu vivia.
Esse desespero era o de poder deixar de existir a qualquer instante, ou
pior: meu estado era o de alguém que "piscava" na existência, já que,
sempre que eu me concentrava em mim mesma, na minha própria consciência,
eu tinha certeza de que existia, de algum modo. Mas, bastava meu
pensamento se voltar para qualquer outra coisa que, subitamente, eu
recordava que nada tinha como persistir por si só, de fato, e aí eu
tinha que voltar a mim mesma pra ver se eu ainda estava ali. Ainda bem
que sempre estava...

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