sábado, 17 de novembro de 2018

Sobre Deus, o Universo e Tudo Mais


Questionada acerca da minha descrença em divindades, especificamente no tocante a eu já ter adotado minha posição como sendo de caráter conclusivo, respondi o que se segue:

Crer na inexistência de algo é, em termos lógicos, até mais absurdo que crer na existência de unicórnios, justamente porque não há evidências possíveis para a inexistência. Não é possível provar que algo não existe porque provas são marcas na existência, logo, eu não "concluí" que deuses não existem, eu meramente resolvi ser honesta para comigo mesma e aceitar que eu não creio neles, e que, quando cria, o fazia sem ter fortes evidências ou boas razões. 

Pois é, minha crença é de que "eles" não existem. Ora, eu me comporto como quem não crê nisso; eu me sinto dessa forma; eu não me pego orando nos momentos difíceis, nem suspeitando que meus atos ou meus pensamentos estão sendo observados (ou de alguma maneira, conhecidos) por alguma entidade superior; nem sinto que há algum sentido oculto na vida que não seja um que eu mesma tenha criado. Quando eu fiz essa análise interior, sendo franca comigo mesma, encontrei essa crença lá. Só o que eu fiz foi admiti-la abertamente. Contudo, isso foi uma análise a posteriori, feita muito depois de eu ter passado a crer que deuses não existem. Na verdade, esta nem sempre foi a minha crença basilar, nesse assunto. Mas ela, também, não surgiu do nada.

Surgiu, sim, ao analisar cuidadosamente as evidências que eu possuía da existência de deus e vê-las cair, com espanto e horror, uma a uma. Foi ao analisar, dolorosamente, as razões que sustentavam minhas crenças e ao perceber que eram frágeis, que nem mesmo constituíam argumentos, muitas vezes, foi somente aí que percebi que tudo aquilo sobre o que havia me baseado para guiar minha vida -- o afirmar categoricamente a existência de "algo" (deus, força superior, teleologia ou, meramente, mundo espiritual distinto do material) -- não passava de autossugestão, ou autoilusão, se preferir.

Daí, fiquei numa posição verdadeiramente cética por um tempo. Mas isso não é pacífico, é desesperador! É insuportável para a alma! Ela pende obrigatoriamente para um dos lados que conhece! Somente em nível do raciocínio, em termos lógicos, podemos nos dizer céticos, pois de outra forma temos dúvidas, sim, mas há algo que cremos no fundo, no fundo. Algo em redor de que as dúvidas se levantam; um algo que já está lá, que não fica oscilando a cada pensada, a cada volta que o pensamento dá ao duvidar. Nem são dúvidas verdadeiras, eu diria, que se erguem, mas mero medo do engano, medo mesmo do desconhecido estar ainda à espreita e você estar correndo o risco de ser pego desprevenido. 

Dúvida verdadeira acerca da existência de deus seria o que? "Será que deus existe?" Isso é uma mera formulação de uma crença que é consciente enquanto a crença que é: "Eu creio em deus, Ele existe -- isto é certo -- e a perfeição (que também existe) é do domínio d'Ele. Logo, a imperfeição está do lado de cá, em mim e em todos como eu. Sendo assim, será que eu estou certa? Não é ao menos possível que eu esteja enganada, ou melhor, que eu tenha estado enganada, durante toda a vida, em crer na existência desse ser fabuloso que, de fato, é?" Essa é a correta formulação do ceticismo intelectual, que é, ainda, um ceticismo teísta. Nesse ponto, está-se um nível acima do ceticismo de alma, do verdadeiro ceticismo, aquele que flutua no caos sem fundamento algum. Aquele é, ainda, o estado do "será?". O ceticismo de alma é o estado do "???": completamente perdido de si, incapaz de sequer formular uma sentença que expresse sua situação de "perdição". E foi isso o que ocorreu comigo.

Mas, antes do "???" veio um forte "!!!". Isso se deu quando percebi que a dúvida inicial, a que me levara à busca que resultara nesse estado de "susto" antes da confusão geral, não era uma dúvida genuína sobre a existência de deus, mas uma genuína dúvida de se eu poderia estar enganada em crer nisso. Enquanto a possibilidade da falha (a possibilidade de inexistir) era atribuída a deus, eu não conseguia duvidar. Foi somente quando eu mudei o foco para mim, que sou, certa e irrevogavelmente, falha (e isso não havia como negar), foi somente aí que consegui uma "brecha" na minha fé pra miná-la por dentro. Mesmo assim, daí em diante, o caminho, apesar de inevitável, continuou difícil.

Com muita dor e esforço e resistência da minha força de vontade de querer saber eu fui minando, uma a uma, as razões que eu cria serem muito boas (mas se demonstraram frágeis, como já dito), e as evidências tão evidentes aos poucos se mostraram enganos igualmente possíveis. Então, somente ao constatar, sem conseguir divisar saída, que não tinha razões suficientes, nem evidências garantidoras dessa crença ter verdadeiramente um "algo" por detrás que a sustentasse, que eu aceitei a possibilidade de olhar a existência de deus (um fato) como uma mera crença (um juízo). E foi justamente isso que me assombrou: o mero vislumbre numa existência a-divina foi um tremendo susto! Mas, aí, já tinha dado o derradeiro passo, não tinha como fingir que não tinha percebido um além, que meu horizonte hermenêutico não havia sido estilhaçado.

O universo, então, se dissolveu diante dos meus olhos. Esse "lado de lá" era como que um caos que não se mexia, algo muito, muito, muito estranho. As coisas não eram mais sólidas, apesar de ainda estarem todas lá. Algum absurdo as mantinha unidas, dispostas, o tempo e o espaço aparentemente dentro dos conformes perceptivos de sempre. Passei umas duas semana meio maluca, pensando o tempo todo "o que é real? o que é real?" Tive a sensação de estar pirando! Foi PUNK!

Levei cerca de dois anos pra reconstruir meu "universo [sem] deus e tudo mais". Átomo por átomo tive que reconstruir, e era tão gigantesca a obra que não havia como não me apegar a crenças prontas, dadas em certo nível, para construir em cima delas. Principalmente no início, pois eu precisava de um solo firme a fim de sair do desespero em que eu vivia. Esse desespero era o de poder deixar de existir a qualquer instante, ou pior: meu estado era o de alguém que "piscava" na existência, já que, sempre que eu me concentrava em mim mesma, na minha própria consciência, eu tinha certeza de que existia, de algum modo. Mas, bastava meu pensamento se voltar para qualquer outra coisa que, subitamente, eu recordava que nada tinha como persistir por si só, de fato, e aí eu tinha que voltar a mim mesma pra ver se eu ainda estava ali. Ainda bem que sempre estava...

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