Lembro-me
como se fosse ontem do dia em que, aos meus 18 anos, tive um papo
tête-a-tête com a morte. Eu tinha um revólver calibre 32 de cano curto,
comprado no mercado negro, que eu havia adquirido para defesa pessoal
após meu namorado ter sido ameaçado de morte por um traficante e ter
passado a andar armado com um facão rabo-de-galo na cintura, por dentro
da calça. Vivia num mundo de pessoas-bichos, cercada de decadência,
violência e drogas. Eu havia conseguido me tranquilizar depois que
adquiri o revólver, e tinha grande cuidado com ele. Desenvolvi um ritual
de limpá-lo todos os dias, como forma de me sentir mais segura e
autoconfiante (armas fazem isso conosco, talvez por isso sejam tão
perigosas).
Um
belo dia, contudo, cansada de tudo aquilo, tranquei a porta do meu
quarto e dei início a meu ritual diário de limpeza do Amadeus (Amadeus
foi o nome que dei ao meu revólver). Todos os detalhes desse momento
estão claros como cristal em minha mente. Abri a porta central do meu
armário, aquela menor, do meio, cheia de prateleiras, e vi a luz da
manhã iluminando parcialmente o interior da prateleira onde Amadeus se
encontrava. Ele estava posicionado com o cabo para a esquerda e o cano
para o fundo, meio na diagonal, de forma que estava parte coberto pela
penumbra, parte na luz. Lembro da poeira fina do ar rodopiando na luz,
quase que tornando-a gasosa. Estendi a mão e o retirei de seu lugar
especial. Sentei-me na cama e, calmamente, limpei-o por fora, com uma
flanela; abri o tambor e retirei as balas; limpei o tambor e o cano,
cuidadosamente e, em seguida, recarreguei o tambor com as 6 balas que
comportava; fechei o tambor; destravei o revólver; levantei-me e andei
em linha reta até o espelho de corpo inteiro do meu quarto, com arma em
punho; apontei Amadeus para a minha têmpora esquerda (sou canhota), em
frente ao espelho. Era uma bela imagem. Belíssima! Dava-me uma paz
tremenda estar ali. Era silencioso, pleno, poderoso. E o poder que eu
sentia (e que, de fato, tinha) era o de acabar com toda a dor. Tudo, o
universo inteiro, todos os momentos vividos e os que viria a viver
estavam ali, diante de mim, expostos e estáticos, esperando... Esperando
minha ordem, minha escolha. O universo curvava-se perante mim, agia
segundo minha vontade.
Observei
a cena no espelho por um longo instante. Fiquei esse tempo todo ali
porque estava me sentindo muito bem. Estava analisando a cena,
vislumbrando o poder que estava em minhas mãos, decidindo se faria ou
não aquilo que estava prestes a fazer. Não pensei nos meus pais
encontrando meu corpo no chão, ensanguentado, com partes de cérebro
misturadas a sangue espalhados pelo chão, porta e paredes. Não pensei na
dor e no desespero que lhes causaria, nem na culpa que eles sentiriam
ao tentar encontrar em si mesmos a razão daquilo tudo. Não pensei na
tristeza que causaria a meus verdadeiros amigos, a meu namorado, a
ninguém. Não havia ninguém ali. Só havia eu, toda-poderosa e suspensa no
tempo.
Pensava,
sim, em tudo o que eu estava vivendo. Como os acontecimentos mundanos
estavam me afetando, como eu sofria diariamente com a superficialidade
humana, com o desejo humano de se tornar bicho, não gente. Pensava nos
horrores que passavam nos noticiários todos os dias, porque além de
horrores, eram reais (eu sabia disso, afinal, vivia parte desses
horrores diariamente). Pensava no ódio cultivado com gosto dentro do
peito da gente comum, que transpira hipocrisia, arrota inveja e rancor, e
que aponta o dedo na cara dos outros em acusação, como se todos fossem
criminosos por possuírem os mesmos defeitos que eles mesmos carregam no
colo e cuidam como se fossem um tesouro precioso ou um bebê. Pensava em
como essa gente era sempre a mesma gente que sempre abria a boca pra
dizer-se amante de Jesus e da Justiça. -- Até hoje acho incrível como é
que tais palavras podem vir à boca, sem jamais antes terem estado
verdadeiramente na mente, nem nascido da alma. -- Pensava que minha vida
era miserável, pois meus pais não me compreendiam e repudiavam quem eu
era; pois o mundo se voltava contra mim; pois eu não encontrava mais paz
em lugar algum que não fosse naquele pequeno período matutino, durante o
qual eu limpava Amadeus. Isso era absurdo demais! Tudo era absurdo!
Como é que a paz estaria na companhia de um objeto capaz apenas de gerar
morte e dor? Como é que eu não me sentia em paz junto às pessoas, junto
à natureza, junto aos animais? Como é que eu não tinha paz interior?
Ora, minha própria companhia me causava ojeriza!!!
Estava
ali, pensando tudo isso e muito mais. Até o ponto em que me dei conta
de que a solução da miséria de minha vida miserável estava bem ali, ao
alcance do mover de um único dedo meu. Um mísero movimento de um único
dos meus miseráveis dedos daria fim à minha miserável vida e ao maldito
sofrimento que só me permitia sentir paz nos momentos e lugares mais
impróprios...
E
foi aí que me veio um estalo: minha vida, por mais miserável que fosse,
não poderia ser mais miserável que o movimento de um dedo MEU! Por mais
que minha vida fosse podre, um dedo meu era ainda menor que tudo isso,
era só parte (e pequenina) de toda a minha miséria. Sequer importava
tanto. Poderia viver numa boa sem esse dedo. Me vi numa sinuca de bico:
não poderia dar cabo da minha vida com um movimento de um dedo meu,
seria uma contradição tremenda!!! Eu estava plenamente de acordo comigo
mesma em que minha vida, por pior que fosse, valeria mais que o
movimento de um dedo meu. Percebi, então, que estava enganada. Chegara
até ali com segurança e paz e, no entanto, agora estava confusa. Não é
poder o que detenho, é covardia! Um dedo que só vive porque a vida que o
habita é-lhe cedida gratuitamente pelo corpo de que é apêndice ter o
poder de usurpar a mesma vida que o anima daquilo tudo de que é parte,
daquilo tudo que lhe confere sentido e existência, daquilo que lhe
confere, inclusive, a posição mesma de usurpador do seu próprio ser...
Ora, isso só poderia ser covardia!
Pensei, então, que, se estava enganada quanto a meu poder, que nem é poder, mas covardia; nem é meu, pois inevitável (a morte é inevitável); que se estava enganada quanto a isso que instantes antes me era verdade absoluta e plena certeza; e se, na mesma medida, estava eu enganada quanto à magnitude da miséria da minha vida -- pois havia algo ainda mais miserável que ela: o movimento fugaz do meu miserável dedo --, era óbvio que eu poderia eu estar enganada, também, quanto ao teor de todo o resto. Da certeza e da segurança e do poder que sentia, passei, subitamente, a um estado de dúvida e investigação. Tudo o que pensara voltou à minha mente sob nova luz, sob a luz do questionamento: será que tudo é tão negro como estou vendo? Será que não há alguma saída, algum lugar onde o mundo é mais como aquilo que eu gostaria que ele fosse? Será que eu já procurei o suficiente? E eu sabia que não. Não procurara, não me esforçara o suficiente para ver o outro lado da moeda. Desde sempre me vi afundada na tristeza e cultivava-a com carinho. Dessa forma, é claro que essa árvore cresceria forte e daria frutos gordos e suculentos! Como não???
Pensei, então, que, se estava enganada quanto a meu poder, que nem é poder, mas covardia; nem é meu, pois inevitável (a morte é inevitável); que se estava enganada quanto a isso que instantes antes me era verdade absoluta e plena certeza; e se, na mesma medida, estava eu enganada quanto à magnitude da miséria da minha vida -- pois havia algo ainda mais miserável que ela: o movimento fugaz do meu miserável dedo --, era óbvio que eu poderia eu estar enganada, também, quanto ao teor de todo o resto. Da certeza e da segurança e do poder que sentia, passei, subitamente, a um estado de dúvida e investigação. Tudo o que pensara voltou à minha mente sob nova luz, sob a luz do questionamento: será que tudo é tão negro como estou vendo? Será que não há alguma saída, algum lugar onde o mundo é mais como aquilo que eu gostaria que ele fosse? Será que eu já procurei o suficiente? E eu sabia que não. Não procurara, não me esforçara o suficiente para ver o outro lado da moeda. Desde sempre me vi afundada na tristeza e cultivava-a com carinho. Dessa forma, é claro que essa árvore cresceria forte e daria frutos gordos e suculentos! Como não???
Compreendi,
pois, que meu poder todo estava justamente na capacidade de escolher
acabar com tudo, ali, naquele momento, ou viver mais um pouco, pra ver
se realmente a decisão de matar-me era a correta. Afinal, se eu mudasse
de ideia, Amadeus estaria sempre ali, pra mim. No entanto, se eu optasse
pela morte, não haveria volta, não haveria possibilidade de
arrependimento, não haveria mais nada. A escolha que eu deveria tomar
tornara-se clara.
Lentamente,
baixei a arma, fitei-me no espelho por mais alguns segundos, e segui
com o restante do ritual: coloquei Amadeus de volta no seu cantinho,
como sempre posicionado com o cabo para a esquerda e o cano para o
fundo, parte na luz, parte na penumbra. Vi uma vez mais a poeira fina
rodopiar na luz e a porta fechar em trevas aquele cubículo da morte. E
isso é tudo o que eu me lembro desse dia.
Depois
disso, algo em mim havia mudado. O mundo todo começou a soar
diferentemente, mas não era o mundo que mudara, era eu. Eu estava
ouvindo e vendo e cheirando e tocando e provando o mundo de um jeito
diferente, totalmente novo. Não era melhor que o jeito anterior, era
apenas diferente. Mas foi aí que percebi que eu não era mais que uma
criança que experimenta o mundo, que experimenta seu próprio corpo, sua
alma viva e sua consciência. -- Até hoje sou essa criança. -- Que eu
estava ali, onde eu estava, por escolha própria. Por uma escolha da
mesma natureza daquela que eu tomara diante do espelho, contudo, com uma
diferença: eu costumava decidir SEM pensar antes. Por isso estava ali.
Por isso o mundo era como era.
A
isso tudo seguiram-se longos meses de reflexão e aprendizado, de
experimentação desse mesmo-mundo-diferente como se me apresentava.
Percebi que minha vida estaria sempre em risco, por isso não fazia
sentido dar cabo dela assim, tão facilmente. MORRER É A ÚNICA
NECESSIDADE NA VIDA! Sendo assim, tudo o mais contingente, todo esse
sofrimento pelo qual eu passava era incerto, poderia, um dia, acabar, e
provavelmente acabaria, como tudo o mais no universo. Aos poucos,
percebi que a violência e a decadência e a estupidez a que eu estava
exposta era algo a que EU MESMA ME EXPUS. Afinal, eu aceitei namorar um
maluco drogado e inconsequente. E mais: eu renovava minha escolha a cada
dia ao insistir em continuar namorando com esse mesmo maluco drogado e
inconseqüente. Eu aceitei conviver (de novo, escolhas feitas uma por
uma, a cada dia) com membros de gangues e ladrões e ex-presidiários. Eu,
e somente eu, fui a responsável pelo afastamento dos meus verdadeiros
amigos, aqueles que se importavam comigo e que estavam muito preocupados
com o rumo das minhas escolhas; aqueles que gostavam de jogar RPG e
ouvir música e ir ao cinema e a shows e conversar coisas interessantes e
rir e se divertir sadiamente. Eles ainda viviam suas vidas sadias, EU
QUE ESCOLHI VIVER DOENTIAMENTE. E, se era eu que havia feito tal
escolha, deveria aceitar as consequências dela, e não agir como uma
covarde inconseqüente, fugindo da minha responsabilidade por mim mesma.
É...
Descobri, por causa daquilo tudo, que EU SOU RESPONSÁVEL POR MIM MESMA.
Eu e mais ninguém. Meus pais podiam não me compreender, e podiam até me
repreender por isso. Mas isso era a escolha DELES. O mundo ao meu redor
poderia ser horrível e decadente, como de fato era e é. Mas eu não
precisava fazer parte disso. Eu sou eu porque EU ESCOLHI SER QUEM SOU.
Se algo de ruim advier dessa escolha, que seja! O mal que me retorna,
afinal, é a pista mais importante do erro que cometi, é a dica da vida
pra que eu possa corrigir minhas ações passadas através das minhas
escolhas futuras; para que eu possa mudar os frutos que eu colho
escolhendo plantar outras sementes.
Isso
tudo ocorreu num período terrível pra mim: final da minha adolescência e
início da minha idade adulta. Foi em torno de 1997 a 2002 que minha
alma adotou uma postura diferente para a vida. Depois disso tudo, ainda
continuei fazendo muita merda, porque essas lições não estavam claras em
minha mente, como estão hoje. Se hoje eu dou este depoimento, tão claro
e uno como parece ter sido, não é porque tudo esteve sempre claro e
ocorreu ordenadamente ao longo do meu percurso. Fiz muita merda depois
disso, ainda, mas fui capaz de aprender com tudo o que vivi. Depois, do
início de 2008 até início deste ano, 2013, eu passei por uma depressão
crônica que me devastou quase completamente. Quis morrer de novo, desta
vez porque a dor de existir era tão grande que era melhor deixar de
existir a inspirar o ar mais uma vez. Foi terrível! Só eu sei como foi
terrível! Contudo, se eu quis morrer, em nenhum momento quis me matar!
Porque eu sabia que essa escolha era algo que eu poderia tomar a
qualquer momento, e porque eu sabia que iria morrer, independentemente
de eu escolher morrer. E eu sabia que o sofrimento que eu estava vivendo
ali não era algo perene. Que eu poderia aguentar a dor com força e
coragem que ela haveria de passar. E o mundo teria outras cores, outros
sabores, outras texturas, outros aromas e outras melodias a me
apresentar, novos e os mesmos mais uma vez. E foi aí, durante minha
"noite escura", que eu descobri que até mesmo nas trevas há beleza...
É
essa a beleza da vida: a profundidade da experiência da alma, seja ela
uma experiência ruim, alegre, confusa ou terrível! A vida passa e é isso
que a torna bela. Tudo será sempre novo e o mesmo novamente e para
sempre! Como isso pode não ser maravilhoso? Como alguém pode querer
fugir de todas essas possibilidades, SABENDO que muito da dor que passa é
resultado de suas próprias escolhas?
Hoje,
eu amo essas experiências terríveis e funestas que vivi. Elas são parte
da força que me constitui, são parte de quem sou hoje. E eu gosto desse
resultado parcial que me tornei. Gosto muito. E foram essas
experiências que me ajudaram a construir a pequena base sólida sobre a
qual eu me coloco sempre que o turbilhão da vida tenta me roubar de mim.
SOU MUITO GRATA A MIM MESMA (e a quem mais?) por ter tido a sagacidade
de espírito de perceber que minha vida (uma miríade infinita de
possibilidades de escolha) não pode valer menos que uma única
NÃO-ESCOLHA minha. Não-escolha porque não é escolha aquilo que é certeza
e que independe de nossa vontade. A morte é a única coisa que temos
certeza que nos acontecerá, cedo ou tarde. Logo, ao escolhermos morrer
num determinado momento e de uma determinada forma, de fato, não estamos
escolhendo nada, apenas ornamentando, enfeitando, como bem achamos que
deve ser enfeitado, um fato que há de acontecer, com ou sem escolhas
quanto aos adornos que o ornamentam.

Nenhum comentário:
Postar um comentário